Jurandir Soares

De Gaza para o Líbano

Enquanto a ação no Líbano vai sendo maturada, Israel segue com seus controvertidos ataques em Gaza

O conflito entre Israel e o Hamas completou nesta sexta-feira, 7, oito meses e o que se observa é que, ao invés de parar, tende a se ampliar para o Líbano. Isto porque o Hezbollah, outra organização terrorista financiada pelo Irã, tem tornado a cada dia mais frequentes seus ataques a cidades do norte de Israel. A ponto de o governo israelense ter promovido nos últimos dias a retirada de 70 mil moradores da região. Segundo o deputado Boaz Bismuth, membro do Likud, partido de Netanyahu, uma guerra no norte "já não é uma questão de se, mas de quando". O comandante das Forças Armadas, Herzl Halevi, disse que seus homens já "estão preparados" para uma ofensiva mais ampla no Líbano.

DESDOBRAMENTOS

Enquanto a ação no Líbano vai sendo maturada, Israel segue com seus controvertidos ataques em Gaza. Nesta quinta-feira, 6, em nome de caça a terroristas do Hamas, bombardeou uma escola da Agência da ONU para Refugiados. Segundo as informações, morreram 37 pessoas, inclusive crianças. Mais um episódio para aumentar a indignação internacional contra Israel. O problema é que, em nome da caça aos militantes do Hamas, Israel tem matado um elevado número de civis palestinos que, segundo a Agência da ONU para Refugiados, já passa dos 38 mil. Portanto, é muito civil morrendo.

Pior, é que não se vislumbra um término desse conflito. Egito, Catar e Estados Unidos têm feito múltiplas reuniões em busca de um acordo para um cessar fogo, mesmo que temporário, mas não estão conseguindo. A última proposta colocada à mesa contempla uma trégua de seis meses, com a retirada de Gaza, a libertação de prisioneiros palestinos e também a libertação de parte dos reféns. Este último detalhe é outro ponto fora do contexto. Por que a estas alturas liberar só parte dos reféns? Por que não libertar todos?

EXTENSÃO

Além de Gaza e do Líbano, a aviação israelense cumpriu uma outra missão nesta semana. Atacou na cidade de Alepo, na Síria, o que seria um entreposto de armas a serem fornecidas para Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica e outras organizações terroristas. O problema é que no ataque morreram dois oficiais de alta patente do exército iraniano. Motivo suficiente para o regime dos aiatolás anunciar a retaliação. Vale lembrar que, no segundo fim de semana de maio, depois de outro ataque de Israel na Síria, que vitimou um alto comandante da Guarda Revolucionária iraniana, o Irã fez um maciço ataque contra cidades israelenses. No total, foram cerca de 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e mais 120 mísseis balísticos que foram lançados contra Israel pelo Irã. O que significa que depois do ataque desta semana na Síria, Israel poderá receber outra retaliação do Irã. Não houve mortes em Israel naquela ocasião. Apenas algumas pessoas feridas. Uma repetição de ataque pode ter consequências mais drásticas.

CATÁSTROFE

O ataque ao Líbano que se desenha, seguramente, irá implicar resultados iguais aos que acontecem em Gaza, onde a população civil é refém do Hamas. A organização terrorista impõe seu domínio da mesma forma que os traficantes impõem em favelas no Brasil. No Líbano, em meio a multiplicidade religiosa que existe no país, todas as correntes têm representação no Parlamento. O que faz com que o Hezbollah também tenha sua representação, não havendo força que impeça essa incoerência.

Assim como os palestinos não conseguem controlar o Hamas, os libaneses não seguram o Hezbollah. E em havendo um ataque de Israel irão sofrer o mesmo que seus vizinhos de Gaza. E Israel, mais uma vez, estará sendo alvo de críticas internacionais.

SOLUÇÕES

Soluções, sabidamente, não são fáceis. Mas este caso do Líbano está a exigir uma ação mais incisiva da comunidade internacional para impedir a ocorrência de outra catástrofe. Sei que é utopia, mas esta ação poderia passar pela colocação, em nome da ONU, de uma força internacional de dissuasão na fronteira entre Israel e Líbano. Com poderes para atacar o Hezbollah em caso deste tentar continuar com suas ações.

Infelizmente, a realidade é outra e o que se percebe é a crescente possibilidade de ampliação do conflito. Talvez, um dos maiores fatores dissuasivos possa vir da própria população israelense, que está cansada da estratégia de guerra de Netanyahu e de sua incapacidade de trazer os reféns de volta. Não é sem razão que protestam quase que diariamente pelas ruas de Jerusalém e de Tel Aviv.