Jurandir Soares

Desamparo da Ucrânia

Estados Unidos demonstram não só não se preocupar em garantir uma paz justa para a Ucrânia, como também não ter interesse pela manutenção da Otan como foi criada

A conferência sobre segurança realizada neste fim de semana que passou, em Munique, deixou uma preocupação muito grande quanto ao futuro da Ucrânia, assim como o futuro da Otan e da própria Europa. Esta preocupação diz respeito às posições que tem assumido o governo dos Estados Unidos, o qual demonstra não só não se preocupar em garantir uma paz justa para a Ucrânia, como também não ter interesse pela manutenção da Aliança Atlântica nos moldes em que foi criada.

E se já havia dúvida com relação a estas questões pela posição do presidente Donald Trump, esta aumentou substancialmente pelo pronunciamento no encontro do vice-presidente J.D. Vance. Ele mostrou que os EUA podem ser uma força de desestabilização interna no bloco. E voltou a manifestar as restrições de Washington quando ao rumo da Aliança Atlântica, assim como a política de imigração europeia.

FECHAMENTO

Nesse ponto da imigração, inquestionavelmente, um dos grandes problemas da Alemanha foi a política de abertura total durante o período de governo de Angela Merkel. Só no ano de 2015 entraram cerca de um milhão de imigrantes na Alemanha, fugidos das guerras do Oriente Médio e do norte da África, além da seca naquele continente.

Ao encontrar-se com Alice Weidel, a líder do partido de extrema-direita AfD, Alternativa para a Alemanha, Vance demonstrou que os EUA estão apoiando a política de fechamento total à imigração, que é defendida não só por esse grupo alemão, mas também pelo presidente da Hungria, Viktor Urban. Porém, com isto, sutilmente os EUA estão ajudando no avanço da extrema-direita na Europa.

UNIDADE

Diante do evidente confronto de opiniões entre Europa e EUA, o presidente francês, Emmanuel Macron, convocou uma reunião de emergência para esta segunda-feira, 17, com a alta cúpula europeia representada por Alemanha, Itália, Polônia, Dinamarca e Reino Unido, além da França, evidentemente. Detalhe que o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia, mas está fechado na questão de dar proteção à Ucrânia. O primeiro-ministro Keir Starmer chegou a declarar antes da reunião que o seu país “está pronto para enviar tropas para a Ucrânia, se necessário, para garantir a segurança do Reino Unido e da Europa”.

NEGÓCIO

Já o presidente Trump, seguindo seu instinto de negociador imobiliário, depois de sugerir transformar a Faixa de Gaza numa Riviera, acena agora com a Ucrânia pagando os empréstimos dos EUA com seus minerais. O senador republicano Lindsey Graham adicionou o componente transacional que permeia todos os aspectos da política externa de Donald Trump: disse que Zelensky deveria assinar um acordo sobre a exploração de minerais raros pelos EUA porque, em caso de agressão, o presidente americano teria interesses materiais a defender ali.

O presidente Zelensky até que concordou com a ideia, com os EUA assumindo 50% dos minerais raros da Ucrânia, desde que dessem garantias para evitar uma nova invasão por parte da Rússia.

ACORDO

O que fica cada vez mais claro é que a solução desse conflito passa por uma negociação envolvendo todas as partes que estão direta ou indiretamente ligadas ao conflito. Ou seja, Ucrânia, Rússia, Europa e EUA. Donald Trump está demonstrando ter um bom relacionamento com Putin e, por isto, tenta resolver a questão nas conversas com o líder russo. Ocorre que ele não está levando em conta a posição da Ucrânia, tampouco a da Europa.

Os europeus estão muitíssimo preocupados com o que possa ocorrer após Putin alcançar seu primeiro objetivo na Ucrânia. Predomina a crença de que ele vai seguir em frente e quem se vê como a suposta próxima vítima é a Polônia. Assim, sentindo este perigo e o distanciamento dos EUA com relação à Otan, Varsóvia está tratando de se armar. Passou a investir 5% de seu PIB em defesa. A Alemanha não está ficando para trás. O país, que no período pós-guerra tinha pruridos em se armar, agora estaria investindo em tecnologia de ponta, logística e inteligência artificial no âmbito de suas forças armadas.

REALIDADE

O que há algum tempo se apresentava como viável seria a Ucrânia entregar as terras tomadas pela Rússia em troca de sua entrada na Otan, para ter a proteção da Aliança Atlântica com relação a futuras investidas de Putin. O líder russo descarta esta possibilidade, alegando que já fez a guerra porque a Ucrânia estaria prestes a entrar na Otan. Assim é que, no atual contexto, tudo é incerto com relação ao futuro não só da Ucrânia, mas de toda a Europa.