Diante das atuais circunstâncias, parece ilusório se falar em diálogo para acabar com a guerra na Ucrânia, porém, o assunto está sendo levantado, mais uma vez. Lembrando que já tivemos vários encontros – inclusive duas reuniões mediadas pela Turquia – e o máximo que se conseguiu foi acertar uma troca de prisioneiros. Pois, só nesta segunda-feira, 21, tivemos novas manifestações, de ambos os lados, falando em negociar o fim da guerra ou, pelo menos, uma trégua. O presidente ucraniano Volodimir Zelensky disse que propôs à Rússia uma nova negociação. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, falou que a Rússia está aberta à negociação, porém, não abre mão de suas reivindicações.
Ora, com isto podemos dizer que seguimos na estaca zero. Sabe-se bem qual é a posição de cada um dos lados. O que a Rússia não abre mão é da tomada da região do Donbas, no leste da Ucrânia. Objetivo traçado quando iniciou a guerra. E que foi o real motivo da invasão. Putin dourou a pílula dizendo que invadiu porque a Ucrânia queria passar a fazer parte da Otan. Isto, sabe-se bem, poderia ser resolvido numa mesa de negociação. Até porque esta era apenas uma pretensão da Ucrânia.
E a Ucrânia, hoje, não aceita o fim da guerra sem a retirada total da Rússia de seus territórios. Ação que tem o total apoio da Europa, a qual sente o temor do expansionismo russo. Pois, sabe-se bem, que o sonho de Putin é ressuscitar a antiga União Soviética. Ou seja, criar um grupo de países da região que se tornem vassalos, sob o domínio de Moscou. O que já acontece hoje com a Belarus.
Antes da Ucrânia, Belarus já havia iniciado um forte movimento em direção ao Ocidente. O país está desde 1994 sob a ditadura de Aleksander Lukashenko, um vassalo de Moscou. Ele vem se reelegendo a cada cinco anos em eleições sabidamente fraudulentas. No ano de 2020, diante de nova fraude eleitoral, o povo saiu maciçamente às ruas das principais cidades do país. Um movimento forte visando eleições limpas e adesão à União Europeia. Lukashenko chegou a balançar, mas, com a ajuda de seu amigo Vladimir Putin, conseguiu sufocar o movimento reformista.
E o que houve foi um tremendo retrocesso para uma população que vislumbrava se livrar do jugo de Moscou. O mesmo viria acontecer também com a Georgia, logo em seguida. Acontece que os países vizinhos da Rússia vêm o exemplo de outros próximos, que também eram dominados por Moscou ao tempo da União Soviética, e que hoje estão associados à União Europeia e desfrutando de uma situação econômica muito boa, como Polônia, Romênia, Hungria, Tchéquia, Eslováquia etc.
Hoje, a Ucrânia está nesse impasse. Quer passar para o lado da Europa, mas, a Rússia não deixa. E por saber das intenções expansionistas de Putin, a Europa está dando todo o apoio possível aos ucranianos. Um apoio que, depois de muita hesitação, passou a ter também o respaldo do americano Donald Trump. Aliás, este deu 50 dias para Putin chegar a um acordo sobre a guerra, sob pena de aplicar novas e pesadas sanções. E não só a Moscou, mas, também a que comprar da Rússia, especialmente petróleo. E, neste caso, estariam incluídos China e Brasil. O fato é que a Rússia, apesar dos pesares, tem suportado as sanções que lhe têm sido aplicadas ao longo da guerra. E conseguiu novos mercados para seus produtos.
MERCENÁRIOS
Diante das dificuldades que está tendo na guerra, a Rússia apelou para os mercenários. Especialmente, depois de ter perdido o grupo Wagner, liderado por Yevgene Prigoryn, morto misteriosamente em um acidente de avião. Pois agora, se tem notícia de novos mercenários atuando na Ucrânia em favor da Rússia. São africanos que recebem um soldo de 2 mil euros por mês. Segundo reportagem de Óscar Gutiérrez, do jornal espanhol El País, eles são treinados em Rostov e depois são enviados para a frente de batalha. E aí passam a enfrentar a dura realidade. Atuam na infantaria, em assaltos massivos em que morrem milhares de homens. Não é sem razão que a Ucrânia já prendeu centenas de africanos que estão lutando em seu território em nome da Rússia.
Assim é que, diante deste quadro, falar em acordo agora entre Rússia e Ucrânia é mera retórica. O único fator que poderia levar a pelo menos um cessar-fogo é o tremendo desgaste que ambos os lados estão tendo. Afinal, neste domingo, 20, tanto Kiev quanto Moscou estiverem sob intenso ataque aéreo.
Nota: Agradeço ao leitor Paulo Sérgio Viana Mallmann que me
corrigiu o erro cometido na edição do último fim de semana,
quando coloquei o ministro da Defesa da Alemanha como
sendo o general Petrus, quando se trata de Boris Pistorius.
