Jurandir Soares

Ditadura se consolida

Maduro está muito bem respaldado, devido ao aparelhamento que foi montado pelo chavismo ao longo dos anos em que foi se firmando no poder

Embora se torne cada vez mais evidente que a oposição venceu as eleições do domingo, 28, na Venezuela, se torna mais evidente ainda que Maduro não irá apear do poder. Isto porque está muito bem respaldado, devido ao aparelhamento que foi montado pelo chavismo ao longo dos anos em que foi se firmando no poder. Um aparelhamento que envolve Tribunal Eleitoral, Suprema Corte de Justiça, Forças Armadas e Legislativo, com o apoio de milícias armadas e do narcotráfico.

Senão vejamos os acontecimentos dos últimos dias. Passaram-se nove dias para que o Conselho Nacional Eleitoral se pronunciasse sobre as atas da eleição. Todavia, em vez de divulgar para o público, entregou-as à Suprema Corte de Justiça. Esta limitou-se a anunciar que, pelas atas o candidato Nicolás Maduro seria o vencedor, com 52% dos votos, contra 43% de Edmundo González. Ação imediata, o pronunciamento do comandante das Forças Armadas, general Vladimir Padrino, declarando que a instituição reconhecia Maduro como “o presidente legitimamente eleito para governar a Venezuela pelo período 2025-2031”.

ACUSAÇÃO

Ao mesmo tempo, Maduro vem com aquele discurso batido de que é vítima de tentativa de golpe por setores ciberfascistas. Isto dentro da sua intenção de acabar com o uso no país de redes sociais, com os respectivos bloqueios de Instagram, Facebook, Tik Tok etc. Ou seja, as formas de a população se comunicar e denunciar as atrocidades do regime. Sim, porque não só as prisões de opositores continuam, como também as mortes, que do domingo, 28, até a segunda-feira, 5, somavam 24 vítimas. Com tendência de aumentar devido à “campanha de terror” denunciada por María Corina Machado.

A oposição já sabe como o sistema age, especialmente através dos chamados “coletivos armados”, que são milícias armadas pelo governo, que atacam onde quer que haja uma manifestação contra o regime. Foi o elevado número de mortos provocados por esses bandidos em tempos recentes que fez os opositores arrefecerem seus protestos. Na ocasião, os pais clamavam a seus filhos para não participarem de protestos, porque a morte era uma possibilidade muito alta. Este sentimento volta a predominar novamente.

DOMÍNIO

Com isto fica cada vez mais evidente a continuidade do sistema, com um fortalecimento maior da ditadura. Aliás, uma ditadura que se escancara cada vez mais. Enquanto isto, os presidentes do Brasil, Lula da Silva, do México, Lopes Obrador, e da Colômbia, Gustavo Petro, seguem falando em busca do diálogo entre Maduro e González. Mas que diálogo pode resultar disto. Já dá para prever que, ao receber a proposta de diálogo, se é que será feita, Maduro virá com a resposta pronta, afirmando que os órgãos do país responsáveis pelo sistema eleitoral lhe deram a vitória.

Interessante que, em meio a isto, surge a informação de que a Missão de Observação Eleitoral, MOE, um projeto independente baseado em Bogotá, checou uma amostragem das atas eleitorais divulgadas pela oposição após o pleito presidencial. E disse que há “sérios indícios sobre a integridade desses documentos”. E não poderia ser diferente. Depois de denunciar, sem ecoar, fraude na eleição anterior, desta vez a oposição se articulou muito bem. Colocou um fiscal em praticamente cada seção eleitoral, por todo o país. Esses fiscais acompanhavam a emissão das atas de votação e as copiavam. Além disto, os oposicionistas contrataram pesquisa de boca de urna. O levantamento dessas atas e o resultado da boca de urna coincidiram, dando 64% para González contra 30% de Maduro. Com base numa abordagem dessas atas, a MOE apontou vitória de González por um percentual ainda maior, 67%.

Para corroborar, a CNN divulgou uma pesquisa realizada em parceria com o Instituto GPS, em que perguntava à população venezuelana quem acreditava que houve fraude na eleição. Pois esta pesquisa apontou, mais uma vez, números coincidentes. Dos entrevistados, 64% disseram acreditar que houve fraude.

FUTURO

Lógico que nada disto é levado em consideração por Maduro e seus parceiros que lhe dão sustentação. Onde se inclui aí setor eleitoral, setor judiciário, forças armadas e narcotráfico. É a grande aliança que se estabeleceu no país. Então, o que esperar? Nada além do fortalecimento e da continuidade da ditadura. Apesar dos protestos dos mais diversos países, especialmente os sul-americanos, que acabaram tendo seus embaixadores mandados embora. E, neste caso, resta observar qual vai ser a posição do Brasil.