Jurandir Soares

Ditadura se escancara

A fraude na eleição na Venezuela fica escancarada por vários fatores

Em um de seus mais recentes discursos para sua claque, o ditador Nicolás Maduro se ufanou de já ter mandado para a cadeia 1.200 opositores e que logo em seguida seriam presos outros mil. Comprovação do que vem sendo praticado no país. Saliente-se que esta repressão provoca não só prisões, mas também mortes. A ONG Victims Monitor confirmou que desde a conclusão da eleição no domingo, 28, até quinta-feira, 1° de agosto, foram registradas 21 mortes. Além disto, o regime empreendeu uma perseguição usando o que passou a chamar de “inteligência social”, o que se poderia reverter para “dedo duro”. Consiste em fazer com que defensores do sistema denunciem seus vizinhos que protestam contra o resultado da eleição.

Mais uma forma de amedrontar a população. Mesmo em meio à repressão, a oposição conseguiu fazer uma grande manifestação no sábado, 3, que contou com a presença da líder María Corina Machado. Para chegar até o local ela tratou de camuflar-se usando um moletom com capuz. No seu pronunciamento, aproveitou para ressaltar que a oposição nunca esteve tão unida. “Não vamos renunciar a nosso direito de protesto cívico”, ressaltou ela na ocasião.

DESPERTAR

Os oposicionistas têm ressaltado que voltaram a ter coragem de protestar, depois de um período de silêncio, provocado pelo temor das ações dos chamados “coletivos armados”, grupos de motoqueiros armados pelo governo que atacam manifestações de opositores. Desde 2014, início do governo de Maduro, os protestos da população têm resultado em mortes. Naquela ocasião o povo protestava contra o aumento da violência urbana e a inflação. Morreram 40 pessoas.

Episódios de ataques a manifestantes passaram a ser uma constante. Em 2019, depois de mais uma repressão a uma manifestação que deixou 104 mortos, María Corina Machado denunciou o fato perante a Corte Interamericana de Justiça, o que lhe valeu pelo governo a acusação de “traição à Pátria” e a perda de direitos políticos por 15 anos. Foi depois deste episódio que os pais passaram a tentar convencer seus filhos a não participarem mais de atos de protesto, porque a morte era uma grande possibilidade. A partir daí a oposição entrou numa espécie de silêncio, que está sendo rompido agora.

RECONHECIMENTO

A fraude na eleição fica escancarada por vários fatores. Um, as pesquisas pré-eleitorais, que apontavam mais de 30% de vantagem para Edmundo González Urrutia. Outro, a pesquisa de boca de urna contratada pela oposição, que apontou 64% para González contra 30% de Maduro. Mais uma, as cópias das atas dos centros de votação, que corroboraram esses resultados. E mais, uma pesquisa CNN/GPS indagou dos venezuelanos sobre quem acreditava que houve fraude na eleição. A resposta apontou que 64% acreditavam. Ou seja, exatamente o mesmo percentual que indicou a vitória de González. Enquanto isto, o sistema eleitoral, que anunciou a vitória de Maduro, não foi capaz de apresentar as atas de votação.

Todos estes fatores levaram os Estados Unidos e outros cinco países a reconhecer a vitória de González. O governo Lula, como histórico aliado de Maduro, ficou tentando dourar a pílula. Buscou aliança com Lopez Obrador, do México, e Gustavo Petro, da Colômbia, outros aliados de Maduro, para tentar uma conciliação entre o ditador e González. Mas que tipo de conciliação é possível. O que é preciso é ser respeitado o resultado das urnas.

SUBMISSÃO

O mais recente ato de submissão de Lula a Maduro envolveu a embaixada da Argentina em Caracas. Vale lembrar que no prédio estão asilados oito opositores venezuelanos que fugiram da repressão. Entre eles, Melissa Meda, assessora de Corina, que também poderia ter sido indicada como candidata. E lembrar também que o embaixador argentino foi expulso do país pelo fato de o presidente Javier Milei ter reconhecido a vitória de González.

Diante disto, num ato louvável, que refletiu a tradição de amizade de Brasil e Argentina, a Embaixada argentina foi entregue aos cuidados do governo brasileiro. De imediato, foi erguida por um diplomata argentino a bandeira do Brasil no prédio da Embaixada. Ocorre que, neste final de semana, a bandeira brasileira foi retirada. Por solicitação de quem? Nicolás Maduro. Ou seja, mais um ato de submissão de Lula, que, pouco tempo atrás, levou um chega pra lá de presidentes sul-americanos, quando tentou vender-lhes a Venezuela como “vítima de uma narrativa”. Mesmo assim, o presidente brasileiro demonstra não ter aprendido o que é democracia e o que é ditadura.