Jurandir Soares

Divisão entre eslavos

Atentado contra o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, se constituiu em mais um episódio a sacudir as relações Leste-Oeste

O atentado contra o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, ocorrido nesta quarta-feira, se constituiu em mais um episódio a sacudir as relações Leste-Oeste. Mais especificamente, entre Estados Unidos e seus aliados europeus e a Rússia e países que compunham a União Soviética. Dá para perceber isto pelo fato de que Fico chegou a falar, recentemente, que a influência ocidental no conflito Rússia-Ucrânia só fez as nações eslavas se matarem. Fico é um social-democrata que está ocupando a chefia do governo pela terceira vez, tendo assumido este mais recente mandato em outubro, com uma mensagem pró-Rússia e antiocidental. Logo que assumiu, cortou a ajuda militar que seu país fornecia à Ucrânia. Opôs-se às sanções contra a Rússia e afirmou que votaria contra o ingresso da Ucrânia na OTAN.

SEMELHANÇA

A posição de Fico e sua manifestação sobre as divisões que se estabeleceram entre as nações eslavas refletem uma realidade do que acontece no Leste, desde que desintegrou-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Ou, mais especificamente, desde que Vladimir Putin assumiu o poder em Moscou, na segunda metade de 1999. De 1989, quando ruiu o comunismo no Leste europeu, até a posse de Putin, a maior parte dos países que orbitavam em torno de Moscou tratou de passar para o lado Ocidental, procurando fazer parte da União Europeia ou mesmo da OTAN. Assim aconteceu com as repúblicas bálticas, Letônia, Estônia e Lituânia, bem como com Polônia, Hungria, Bulgária, Romênia e a própria Eslováquia, que, na ocasião, compunha um só país com a Tchéquia, então chamado de Tchecoslováquia.

TENTATIVAS

Alguns países ficaram numa espécie de limbo, como Ucrânia, Belarus, Georgia e Moldávia. Supunham levar uma vida própria, sem alianças. Porém, quando viram as benesses que passaram a gozar aqueles que aderiram à União Europeia – como integração, livre trânsito de pessoas e de mercadorias, respeito à democracia etc. – foram tratando de também passar a fazer parte do bloco. Só que este despertar se deu quando Putin já havia assumido o poder, com sua manifesta saudade da União Soviética. Assim, Putin conseguiu segurar o forte movimento pró-Ocidente que se estabeleceu na Belarus. Depois de anos de protestos contra as fraudadas eleições conduzidas por Alexander Lukashenko, Putin conseguiu dar o apoio necessário ao ditador, para que este sufocasse a oposição e se firmasse no poder. Aqueles pró-Ocidente tiveram que engolir calados, sob pena de serem eliminados pelos métodos que Putin utilizava aos tempos em que comandava a KGB, a polícia política da URSS.

RESULTADOS

Putin tentou fazer o mesmo na Ucrânia quando esteve no poder Víktor Fédorovytch Ianukóvytch. Só que ali os movimentos populares foram mais fortes e o líder pró-Rússia acabou sendo detonado do poder. Ao assumir, Volodimir Zelensky buscou seguir os passos dos primeiros países que passaram para a órbita do Ocidente e que vão muito bem, obrigado. Só que Putin continuava com sua intenção de trazer a Ucrânia de volta para o controle de Moscou. E para isto deflagrou a guerra, iniciada a 24 de fevereiro de 2022. Quando o Ocidente reagiu a favor da Ucrânia, Putin ameaçou usar até armas nucleares. E a propósito, vale lembrar que, para se tornar um país independente, em 1991, a Ucrânia entregou para a Rússia todas as armas nucleares que possuía desde os tempos da União Soviética. Georgia e Moldávia já tiveram sufocados seus movimentos de passagem para o Ocidente, inclusive com perda de territórios para a Rússia.

MOVIMENTOS

À frente do governo da Eslováquia, Robert Fico tem sido uma figura contraditória e, ao mesmo tempo, suspeita. Em 2018 ele teve que renunciar devido aos protestos pelo assassinato do jornalista Jan Kuciak e sua companheira Martina Kusnirova, quando investigavam conexões entre pessoas próximas ao Smer, o partido de Fico, e a Máfia italiana, assim como escândalos de corrupção no governo. Em 2022, Fico teve que responder a ação judicial por apoio ao crime organizado. Seu processo, no entanto, foi resolvido, como se usa no jargão futebolístico, no tapetão. Assim é que podem existir múltiplos interesses por trás deste atentado contra Fico.