Jurandir Soares

Eleição sem credibilidade

Maduro resolveu enaltecer o sistema eleitoral venezuelano e colocar em dúvida as eleições em países realmente democráticos

Será que alguém pode confiar na seriedade da eleição marcada para domingo, 28, na Venezuela, quando o ditador Nicolás Maduro afirma que “se a oposição ganhar haverá um banho de sangue”? Claro que não! Pois a declaração do ditador assustou até o seu maior aliado e defensor, o presidente Lula. Aliás, Lula deve estar arrependido de ter tentado enfiar goela abaixo dos presidentes sul-americanos, reunidos em Brasília, em maio de 2023, que a Venezuela é vítima de uma narrativa. E que lá impera a democracia. Maduro deu tanta importância para o impacto que agora causou em Lula, que disse simplesmente que “quem se assustou com sua declaração, que tome chá de camomila”. Ou seja, não está nem aí para o seu maior aliado e defensor.

E o que é pior, Maduro resolveu enaltecer o processo eleitoral venezuelano e detonar os mesmos em países em que a democracia está há muito consolidada, como nos Estados Unidos, na Colômbia e até mesmo no Brasil, o que significa colocar sob suspeição o mandato do próprio Lula. E teve ainda a audácia de dizer que “a Venezuela tem o melhor sistema eleitoral do mundo”. Só não fala que este processo eleitoral é controlado por organismos completamente aparelhados. Basta lembrar que ao longo dos anos o chavismo colocou seus comparsas na Suprema Corte de Justiça e no Superior Tribunal Eleitoral. E, para que o Parlamento não agisse contra o aparelhamento, tratou de aparelhar também aquele poder. Basta lembrar que na eleição legislativa de 2017 a oposição colocou a maioria de dois terços no Parlamento, chamado de Assembleia Nacional. De imediato, Maduro cassou cinco deputados para tirar a maioria absoluta. Na sequência, convocou uma Assembleia Constituinte e destituiu a Assembleia Nacional. Lógico que a eleição para a Constituinte foi manipulada para ter a predominância do chavismo.

Sob pressão internacional e visando aliviar as sanções impostas contra o país, especialmente pelos Estados Unidos, Maduro concordou em realizar eleições presidenciais livres e com observadores internacionais, o que resultou no Acordo de Barbados. No entanto, logo foi desrespeitando os termos do acordo. Começou por cancelar a participação dos observadores eleitorais da União Europeia. A alegação chega a ser cômica: “são pessoas não confiáveis”. Aliou-se a isto o impedimento da candidatura da mais destacada figura da oposição, Maria Corina Machado, que estava disparada à frente nas pesquisas, mas, foi declarada inelegível, por “conspiração contra a Pátria”. Seu crime foi ter denunciado à Corte Interamericana de Justiça a repressão do governo contra manifestantes, em 2017, que resultou na morte de 103 pessoas.

Impedida de concorrer, Maria Corina indicou sua assessora Magali Meda. Esta, de repente, teve que pedir asilo na Embaixada da Argentina em Caracas para não ser presa. Então, veio a candidatura da professora Corina Yoris, de 80 anos. Passou-se o tempo de inscrição e ela não conseguiu acessar o sistema. Até que, finalmente, a oposição conseguiu inscrever o advogado Edmundo Gonzalez Urrutia, que, segundo o Instituto Delphos, tem agora cerca de 60% das intenções de votos. Ou seja, numa eleição limpa ele venceria facilmente. Porém, pelo que se observa, a eleição marcada para domingo na Venezuela não terá nada de limpo.

A deterioração da economia da Venezuela é retratada por alguns fatos marcantes. Como, por exemplo, a inflação, que durante vários anos se tornou a maior do mundo, até ser suplantada pela da Argentina. No país, que é membro da OPEP e que tem uma das maiores reservas mundiais de petróleo, não existe gasolina nos postos de abastecimento. E, para sacramentar, há o contingente de cerca de sete milhões de venezuelanos que tiveram que deixar seu país em busca de sobrevivência. Aliás, os quais agora não conseguem se inscrever para votar, simplesmente, porque o governo sabe que irão votar contra ele.

Este é o quadro que se apresenta para a eleição de domingo, se é que será realizada.