Jurandir Soares

Eleição é teste para Trump

As eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos prometem ser decisivas para o presidente norte-americano, que enfrenta índices recordes de rejeição

As eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos prometem ser um teste decisivo para Donald Trump e seu governo. Mais do que renovar parte do Congresso, a votação poderá definir os limites do poder presidencial, a capacidade de aprovar leis e o rumo político do país até o fim do mandato. Com a popularidade do presidente em queda, os republicanos enfrentam o risco de perder posições importantes para os democratas, transformando a eleição numa espécie de referendo sobre a gestão Trump. Estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. A maioria em qualquer uma das duas Casas é fundamental para determinar a força do governo no Congresso. Uma vitória democrata na Câmara, no Senado ou em ambos poderá dificultar a agenda da Casa Branca, ampliar a fiscalização das decisões presidenciais e abrir caminho para novos confrontos institucionais.

ANTECIPAÇÃO

O sistema eleitoral norte-americano permite que milhões de eleitores votem antes do dia oficial, tanto presencialmente quanto pelo correio, conforme as regras de cada estado. A votação antecipada já está em andamento, e o Texas, um dos mais tradicionais redutos republicanos, tornou-se centro das atenções. O democrata James Talarico aparece à frente do republicano Ken Paxton na disputa pelo Senado, num resultado que, se confirmado nas urnas, representará um revés expressivo para o partido de Trump.

REJEIÇÃO

O principal problema dos republicanos é a impopularidade do presidente. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 19 de outubro aponta que apenas 31% dos americanos aprovam sua atuação, o pior índice de seus dois mandatos. Na preferência partidária para o Congresso, os democratas têm 47% das intenções de voto, contra 35% dos republicanos. O custo de vida, a alta dos combustíveis e a insatisfação com a política econômica estão entre os fatores que desgastam o governo. Trump, entretanto, continua no centro da campanha e tenta mobilizar sua base eleitoral. A estratégia pode funcionar entre os eleitores mais fiéis, mas também estimula a oposição. A questão é saber se os democratas conseguirão transformar a insatisfação nacional em votos suficientes para conquistar o Congresso.

DESCONFIANÇA

Uma pesquisa divulgada pelo Washington Post, pela ABC News e pela Ipsos acrescenta um dado preocupante ao cenário eleitoral: 70% dos americanos acreditam que Trump poderá não reconhecer uma eventual derrota republicana.

A desconfiança ultrapassa as fronteiras partidárias, embora seja muito mais acentuada entre democratas e independentes. O levantamento revela o tamanho da crise de credibilidade em torno do presidente e o receio de que uma disputa apertada provoque novos conflitos sobre a legitimidade do resultado. Segundo a pesquisa, até entre os republicanos há a crença de 36% de que Trump não reconhecerá derrota.

A lembrança da eleição presidencial de 2020, quando Trump contestou a vitória de Joe Biden e tentou reverter o resultado, continua presente. Agora, a preocupação é que a contestação se repita caso os republicanos percam o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.

CONSEQUÊNCIAS

Uma vitória democrata na Câmara permitiria intensificar investigações sobre o governo e dificultar a aprovação de projetos presidenciais. A conquista do Senado teria consequências ainda maiores, ao alterar o equilíbrio de forças nas votações legislativas e nas confirmações de autoridades indicadas pelo presidente.

Mesmo sem maioria democrata nas duas Casas, a perda de uma delas já reduziria a margem de manobra de Trump. O resultado de 3 de novembro será, portanto, mais do que uma disputa parlamentar. Será um julgamento político de Trump, de suas decisões e de seu estilo de governar. Para os republicanos, está em jogo a continuidade do controle do Congresso. Para os democratas, a oportunidade de conter o presidente. Para os americanos, a credibilidade das instituições e a capacidade do sistema político de respeitar o resultado das urnas.

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