Jurandir Soares

Equador dividido

Resultado do primeiro turno da eleição realizada neste domingo representa bem o que acontece no país, na disputa entre o presidente Noboa e a candidata de Rafael Correa

A dicotomia que vem se estabelecendo pelo mundo entre direita e esquerda está também no Equador. O resultado do primeiro turno da eleição realizada neste domingo representa bem o que acontece no país, que ficou caracterizado como a disputa entre o antinoboísmo e o anticorreísmo. Ou seja, entre o atual presidente Daniel Noboa, de direita, e o ex-presidente Rafael Correa, de esquerda. E o resultado do pleito, com 93% das urnas apuradas, refletiu isto: Noboa com 44,26% dos votos e a candidata de Correa, Luisa Gonzalez, 43,84%.

Noboa, que vem de uma família que enriqueceu exportando bananas, assumiu o poder há um ano e meio, em um mandato tampão, em virtude da renúncia do então presidente Guillermo Lasso. Herdou um país dominado pelo narcotráfico e sua consequente violência e criminalidade. No ano de 2020, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes era de 7,8%. Em 2023, passou para 46,2% por mil habitantes.

FILIAL

O Equador se tornou território de filiais dos dois mais poderosos cartéis de traficantes do México: Los Zetas e Sinaloa. O que mergulhou o país, antes relativamente calmo, numa violência intensa, que resultou inclusive na morte de um candidato à presidência em plena campanha eleitoral. Além de múltiplas revoltas em prisões que só terminaram com um elevado número de mortes entre os presos.

Para lutar contra este quadro, só uma mão de ferro. Que é o que Noboa demonstrou ter. O problema, como sempre, é que na extensão dessa luta contra a criminalidade acontecem algumas ações que são motivo de contestação dos órgãos de defesa dos direitos humanos. É o mesmo que acontece em El Salvador com Bukele. Uma linha dura com uma certa militarização para combater a violência.

SECA

Não bastassem os enormes problemas para a segurança pública, o país passou a ser assolado nos últimos anos por fortes secas, que afetaram profundamente o sistema de fornecimento de energia elétrica, baseado fundamentalmente em hidrelétricas. Um dos resultados foram apagões diários de quatro a 14 horas. E na extensão, problemas imensos para o setor industrial. E como a reação é em cadeia, vieram o desemprego e a recessão econômica. Esta situação, aliada à violência urbana, gerou uma debandada da população.

PODER

Este país, que adotou o dólar americano como moeda oficial, em 2000, já foi um importante exportador de petróleo, a ponto de ser membro da Opep. Não teve, porém, as mesmas proporções das jazidas da vizinha Venezuela e acabou perdendo este poder petrolífero. Porém, ganhou na contrapartida com a ecologia. O país é o único do mundo que tem uma Constituição que reconhece os direitos da natureza. Mas isto se deu depois de a exploração de petróleo na floresta amazônica equatoriana ter levado a liberação de milhares de milhões de litros de resíduos não tratados, gases e petróleo para o meio ambiente, contaminando os ecossistemas e causando efeitos prejudiciais à saúde dos povos indígenas.

Isto mudou o quadro de um país que tem a maior biodiversidade por quilômetro quadrado e, segundo a organização Conservação Internacional, é um dos 17 países megadiversos do mundo. Tem 1.600 espécies de aves, sendo 15% das espécies mais conhecidas do mundo. Isto no continente, porque o grande destaque do país são as ilhas Galápagos, conhecidas por serem o local de nascimento do evolucionismo, criado pelo britânico Charles Darwin, e por serem Patrimônio da Humanidade, declarado pela Unesco.

FUTURO

Administrar este país com este potencial, mas com os problemas atuais, será o grande desafio para quem resultar vencedor no segundo turno. O período agora será de busca de alianças, pois foram 16 candidatos que se apresentaram no primeiro. Com o que há um elenco enorme de alianças a serem formadas.

A candidata da esquerda lembra os tempos de bonança do governo de Rafael Correa, quando o país navegava nas commodities do petróleo. Os adeptos de Noboa lembram que foi pela corrupção que Correa teve de passar a viver exilado na Bélgica, como está hoje. E, ainda segundo os noboístas, se sustentando com o dinheiro ilícito auferido à época.

Os apoiadores de Luisa Gonzalez tentam desligá-la da figura de Correa e ressaltam o que consideram violações aos direitos humanos pela política de Noboa. Assim, resta aguardar o dia 13 de abril para saber qual será o destino do Equador.