Jurandir Soares

Eurocentrismo x Nacionalismo

Houve um grande crescimento da direita e da extrema-direita, porém a vitória ficou com o grupo que já controla o Parlamento Europeu

Começo ressaltando que este artigo não tem o objetivo de mostrar minha preferência política, mas apenas de esclarecer sobre um resultado eleitoral que parece estar sendo assimilado de modo controverso. Falo sobre a recente eleição para o Parlamento Europeu. O entendimento que parece predominar é de que a direita resultou na grande vencedora do pleito. Não é isto. O que aconteceu foi um grande crescimento da direita e da extrema-direita, porém a vitória ficou com o grupo que já controla o Parlamento e que é formado por partidos de centro-direita, os democratas cristãos, de centro, os social-democratas, e de centro-esquerda, os socialistas. Isto de acordo com as tendências predominantes na Europa. São 720 cadeiras distribuídas, proporcionalmente, entre os 27 países-membros da União Europeia.

NÚMEROS

A tabela divulgada pela União Europeia dá os números do pleito entre os grupos políticos no Parlamento Europeu:

PPE - Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos):

186 lugares e 25,83% (percentual de lugares);

S&D - Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu: 135 lugares e 18,75% (percentual de lugares);

Renew Europe – Liberais Democratas: 79 lugares e 10,97%;

ECR - Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus: 73 lugares e 10,14%;

ID - Grupo Identidade e Democracia: 58 lugares e 8,06%;

Verdes/ALE - Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia: 53 e 7,36%;

The Left - Grupo da Esquerda no Parlamento Europeu - GUE/NGL: 36 lugares e 5,00%;

NI - Não Inscritos: 45 lugares e 6,25%.

Outros - Deputados recém-eleitos não filiados em qualquer dos grupos políticos do Parlamento cessante: 55 lugares e 7,64%.

Nos termos do Regimento do Parlamento, um grupo político é constituído por pelo menos 23 eurodeputados eleitos em ao menos sete estados-membros.

CRESCIMENTO

O crescimento mais significativo de partido da extrema-direita foi o da AfD, Alternativa para Alemanha, que passou de 11 para 17 cadeiras. Superou o tradicional SPD, social-democrata, que ficou com 14 cadeiras, tendo perdido duas. Porém, o mais votado na Alemanha foi a CDU, democrata-cristão, com 29 cadeiras. Com as conquistas, o novo desafio do AfD será articular novas alianças no Parlamento Europeu para que sua participação tenha a influência que almejam nas tomadas de decisão, depois de romperem recentemente com a coalizão mais conservadora da Europa, após um racha com a líder francesa Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional. O grupo acabou rompendo também com outra liderança expressiva da direita na Europa, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.

POSICIONAMENTOS

Os atuais detentores do controle do Parlamento Europeu são os chamados eurocentristas, enquanto os grupos da direita e da extrema-direita que cresceram são chamados de nacionalistas. A diferença entre os dois é que os eurocentristas defendem a manutenção e o fortalecimento da União Europeia. Os nacionalistas querem o enfraquecimento da UE com maior autonomia dos países.

Cada grupo tem suas razões. Os que defendem o status quo lembram que a Europa dividida levou à sua ruína com as duas grandes guerras. Foi depois da Segunda Guerra que os grandes opositores resolveram se aliar. França e Reino Unido, que combateram contra Alemanha e Itália, buscaram sua unificação e colaboração. Foi assim que, gradativamente, foi se formando a Comunidade Econômica Europeia, que viria a se transformar na União Europeia. Seus princípios básicos, a livre circulação de pessoas e de mercadorias, as fronteiras foram levantadas, podendo uma pessoa trabalhar ou estudar em qualquer país do bloco. Taxas alfandegárias foram levantadas e as normas sanitárias foram unificadas. Na sequência foi implantado o euro, a moeda unida.

Ocorre que o liberalismo europeu deu margem a uma leva de migrantes, que se acentuou na última década. Grupos fugindo das guerras no Oriente Médio ou da seca e da fome na África passaram a inundar as grandes cidades europeias. Com o agravante de, em sua maioria, não se adaptar à cultura local, buscando manter seus costumes e hábitos religiosos originais. Foi este um dos principais fatores a fazer crescer os partidos da direita e da ultradireita. Foi este, aliás, um dos aspectos a fazer com que o Brexit fosse vencedor no plebiscito para a saída do Reino Unido da União Europeia. Os alemães, os franceses etc. passaram a querer ter o seu país para os seus cidadãos de origem. Estes foram os fatores básicos a pesar na atual eleição. Com o que fica o alerta para os atuais detentores do controle do Parlamento Europeu: tratem de revisar a questão migratória.