Jurandir Soares

Fome na Faixa de Gaza

Manifesto de mais de 100 organizações reforçou alertas sobre cenário na região

O alerta sobre a fome em massa na Faixa de Gaza vem sendo dado pelos mais diversos organismos humanitários que atuam naquela área. Porém, mesmo à distância, basta ver as imagens que chegam da região, diariamente, pelos canais de televisão. São mulheres e crianças com panelas nas mãos, se amontoando em locais de distribuição, em busca de comida ou de água. O grande problema estaria não na chegada de alimentos a Gaza, mas na distribuição dos mesmos. Há a acusação de que, desde que Israel e Estados Unidos assumiram a distribuição, os alimentos não têm chegado ao seu destino de modo a atender as necessidades locais.

Nesta quarta-feira, por exemplo, tivemos um manifesto de mais de 100 organizações - incluindo a Médicos Sem Fronteiras, o Conselho Norueguês para Refugiados e a Refugees International - alertando sobre a “fome em massa” no território. Afirmando que isto ocorre mesmo com toneladas de alimentos, água potável, suprimentos médicos e outros itens intocados nos arredores de Gaza. E a queixa é de que as organizações humanitárias estariam impedidas de acessá-los para fazer a entrega.

APELO

Há informações de crianças morrendo de inanição, enquanto que outras morrem nas proximidades dos pontos de distribuição de alimentos. Segundo a ONU, 875 crianças morreram nessas circunstâncias.

Este fato levou um grupo de 25 países a fazer uma declaração conjunta pedindo o imediato fim da guerra em Gaza. E este grupo não é de quaisquer países. É integrado, entre outros, por Reino Unido, França, Canadá, Itália, Dinamarca, Japão, Austrália e Nova Zelândia. A nota dos países condena o que descrevem como “distribuição a conta gotas de ajuda e o assassinato desumano de civis”. Acrescenta ainda que “o modelo de entrega de ajuda do governo israelense é perigoso. Alimenta a instabilidade e priva a população de Gaza de sua dignidade humana”.

CONTESTAÇÃO

Apesar das evidências, Israel tem rejeitado, repetidamente, os relatos de fome em Gaza. Uma autoridade de alto nível do país, citada pelo jornal Times of Israel, disse que os militares não identificaram fome em Gaza. Porém, reconheceu que houve uma queda significativa na quantidade de ajuda aos palestinos, mas, a culpa era da ONU, por não coletar e distribuir os alimentos. A ONU já havia alertado que não consegue ter acesso aos alimentos para fazer a distribuição. Esta situação torna mais grave a crise, pois os alimentos têm chegado a Gaza, mas não são entregues à população.

De outra parte, há o clamor em Israel por parte dos familiares dos reféns para que o governo de Netanyahu negocie um cessar-fogo, com a respectiva libertação daqueles que ainda estão em cativeiro. Estima-se que sejam em torno de 50, sendo que 20 estariam vivos e os outros 30, mortos.

ATAQUE

Netanyahu, no entanto, segue com sua obstinação de continuar atacando e, nesta semana, lançou ofensiva em Deir al-Balah, cidade onde ainda não haviam ocorrido combates e, por isto, funcionava como um centro de esforços humanitários. A crença do governo israelense é de que os reféns estão detidos nessa cidade. Daí a ofensiva. O problema é se conseguirão resgatar os reféns com vida. O fato levou os parentes dos reféns a indagar o ministro da Defesa, Israel Katz, e o chefe do Exército, Eyal Zamir, sobre como seus familiares serão protegidos dos bombardeios.

Para os palestinos, mais um drama, pois a área inclui armazéns humanitários, clínicas de saúde primária, postos médicos e infra estrutura hídrica.

VOZ FORTE

Uma voz forte, porém, tem se levantado dentro de Israel, em contestação ao que está sendo feito em Gaza. Esta voz é do ex-primeiro ministro Ehud Olmert, que governou o país de 2006 a 2009. Em maio, em entrevista ao jornal israelense Haaretz, Olmert disse que “o país está cometendo crime de guerra em Gaza, com matança indiscriminada de civis”.

Nesta semana, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ele fez forte crítica ao plano do governo de Netanyahu de criar o que chamou de “cidade humanitária” na região de Rafah. Seria um local para onde seriam enviados cerca de 600 mil palestinos e de onde não poderiam mais sair. Olmert classificou o plano como “campo de concentração”.

Menos mal que Olmert não foi voz solitária quanto ao tema. Segundo a imprensa israelense, o chefe do Estado Maior, tenente-general Eyal Zamir, também criticou o plano. Mas condenou por considerar que a iniciativa desviava a atenção dos dois principais objetivos da guerra: eliminar o Hamas e libertar os reféns. É certo que a guerra começou por causa do Hamas, porém, o preço que está pagando a população palestina está extrapolando o limite do razoável. Especialmente quando morrem de fome.