Jurandir Soares

Guerra avança, Trump tropeça

Presidente dos EUA enfrenta crescentes dificuldades no campo diplomático, acumulando reveses que expõem o isolamento de Washington em um conflito de proporções cada vez mais amplas

A ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã entra em uma fase de contrastes evidentes. De um lado, a estratégia militar israelense mostra eficácia ao atingir alvos de alto valor, especialmente lideranças do regime iraniano. De outro, o presidente Donald Trump enfrenta crescentes dificuldades no campo diplomático, acumulando reveses que expõem o isolamento de Washington em uma guerra de proporções cada vez mais amplas.

O cenário revela uma campanha militar que avança taticamente, mas perde sustentação política internacional. Enquanto Tel Aviv intensifica sua política de “decapitação” da cúpula iraniana, aliados tradicionais dos EUA resistem a ampliar seu envolvimento, afirmando que o conflito não é seu e temendo os custos econômicos e estratégicos de uma guerra que já afeta rotas vitais, como o Estreito de Ormuz.

ISOLAMENTO

A tentativa de Washington de formar uma coalizão mais robusta sofreu um duro golpe com a recusa de membros da Otan em enviar forças militares para a região. Países europeus, já pressionados por crises internas e receios de escalada, optaram por limitar seu apoio a declarações políticas e cooperação logística restrita.

A negativa ganhou ainda mais peso com a posição semelhante de parceiros estratégicos fora da aliança atlântica, como Japão e Austrália. Ambos rejeitaram participar de uma eventual operação para desobstruir o Estreito de Ormuz, temendo represálias iranianas e impactos sobre suas economias dependentes do fluxo energético da região.

BAIXAS

Enquanto os EUA enfrentam dificuldades políticas, Israel mantém sua ofensiva cirúrgica. Sob a liderança do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, forças israelenses intensificaram operações de inteligência e ataques direcionados contra figuras-chave do regime iraniano.

Nos últimos dias, ao menos três lideranças de expressão foram eliminadas, reforçando a estratégia de enfraquecimento interno do aparato político e militar de Teerã. A campanha busca desorganizar cadeias de comando e reduzir a capacidade de resposta do Irã, ainda que aumente o risco de retaliações mais amplas e imprevisíveis.

RUPTURA

Já o desgaste em Washington ganhou contornos mais graves com a renúncia de Joseph Kent, chefe do Centro Nacional de Contraespionagem. Kent deixou o cargo em protesto contra a condução da guerra, argumentando que o Irã não representava uma ameaça direta aos EUA.

Em sua avaliação, a decisão de intervir teria sido influenciada pelos interesses de Israel, o que alimenta críticas internas de que Trump teria se alinhado excessivamente às prioridades de Benjamin Netanyahu. A saída de Kent expõe fissuras dentro do aparato de segurança norte-americano e amplia o debate sobre os objetivos reais do conflito.

EXPANSÃO

No terreno, a guerra se expande para além das fronteiras imediatas de Israel e Irã, atingindo diversos pontos do Oriente Médio. A insegurança crescente levou ao fechamento temporário de aeroportos como o de Dubai, afetando o tráfego internacional e elevando o nível de alerta em toda a região.

Acrescente-se a destruição do Líbano, que está ocorrendo em decorrência dos ataques de Israel ao Hezbollah, depois que o grupo terrorista resolveu atacar o território israelense em solidariedade ao Irã. O Líbano é vítima também da incompetência de seu governo em controlar o Hezbollah.

O impacto já alcança também o calendário esportivo global. O Grande Prêmio de Fórmula 1, que seria realizado em abril no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos, foi suspenso, evidenciando como o conflito ultrapassa o campo militar e atinge setores econômicos e simbólicos.

A combinação de escalada bélica, isolamento diplomático e efeitos colaterais globais sugere que a guerra caminha para um impasse perigoso. Com poucos sinais de descompressão, o conflito tende a prolongar-se, aprofundando instabilidades e redesenhando o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio.