De repente surgiu mais uma guerra neste nosso conturbado mundo. Lá no Sudeste asiático, envolvendo Camboja e Tailândia. Os dois países disputam território fronteiriço, mapeado há mais de um século por colonizadores franceses. Lembrando que na época a região se chamava Indochina Francesa. Agora, a tensão entre as duas nações asiáticas voltou a escalar para conflito armado, deixando mais de uma dezena de mortos.
Os combates eclodiram perto do antigo templo de Presat Ta Muen Thom, localizado entre a província tailandesa de Surin e a província cambojana de Oddar Meanchey e se concentraram em seis pontos ao longo da fronteira. Os dois países se acusam mutuamente por terem aberto fogo primeiro.
QUESTÃO ANTIGA
As duas nações discutem há décadas sobre onde a fronteira dos territórios deveria ser traçada. O último confronto de larga escala havia ocorrido na região há quase 15 anos, mas as tensões voltaram a crescer em maio, quando um soldado cambojano foi morto naquela área.
O desacordo dos dois países sobre a delimitação da fronteira teve início no começo do século 20, quando a França, que ocupava o atual Camboja, fez um acordo com o então reino do Sião, atual Tailândia. E o que ficou mal resolvido foi a questão envolvendo o importante templo hindu de Preah Vihear, do século XI, que mais tarde viria a ser tombado pela Unesco como patrimônio da humanidade. Acontece que o templo ficou do lado cambojano, o que passou a ser contestado pelo país vizinho. E a Tailândia aproveitou o fim do protetorado francês, na década de 1950, com a retirada de tropas da região, para se apoderar do templo. Com isto manteve-se a crise entre os dois países com frequentes combates de fronteira.
RIVALIDADE
A rivalidade é tão grande que, neste mês, abalou até o governo da primeira-ministra da Tailândia, Paetongtarn Shinawatra. Ela chegou a ser suspensa do cargo pelo entendimento de que teria favorecido o Camboja em conversas mantidas com Hun Sun, ex-governante do país vizinho. Na extensão houve a expulsão recíproca de diplomatas e o consequente aumento das tensões, chegando à confrontação, sem que se saiba quem atacou primeiro.
A Tailândia era até 1932 uma monarquia absolutista, quando então transformou-se em monarquia constitucional e mudou o nome de Sião para o atual. Já o Camboja, que também era conhecido por Campuchea, foi um dos alvos de bombardeio dos Estados Unidos, na década de 1970, por ocasião da Guerra do Vietnã. O país é governado por um primeiro-ministro, Hun Manet, que já se transformou numa espécie de ditador, pois está desde 1992 no cargo.
CONFRONTO
Os países compartilham uma fronteira terrestre de 817 quilômetros. A demarcação foi feita pela França, que controlava o Camboja como colônia. O Camboja já havia buscado uma decisão da Corte Internacional de Justiça (CIJ) da ONU sobre áreas em disputa, incluindo o local do confronto mais recente. Mas a Tailândia não reconhece a jurisdição da CIJ e alega que algumas áreas ao longo da fronteira nunca foram totalmente demarcadas, incluindo os locais de vários templos antigos.
Convenhamos que por ser uma área turística, e ainda com recursos minerais e rotas comerciais, o mais prático seria os dois países compartilharem a administração da mesma. Estariam usufruindo os recursos que agora estão mandando embora. Porém, a experiência mostra que rivalidades não comportam acordos. Mas, por se tratar de uma área que possui templos que foram tombados como patrimônio da humanidade, poderia ser delegado poder à própria Unesco para administrá-la.
ESPECULAÇÕES
Tudo isto não passa de especulações, feitas a muita distância da área dos acontecimentos. Os bombardeios recíprocos ocorridos nos últimos dias, com mais de uma dezena de mortos, e com a respectiva expulsão de embaixadores de um e de outro país, demonstram quão alto é o grau de antagonismo e quão difícil é conseguir a paz. Tarefa que ficará delegada à Associação de Nações do Sudeste Asiático, Asean, da qual os dois são membros. Porém, pelo histórico do conflito, se conclui que o máximo que se poderá obter agora será apenas mais uma trégua, a ser rompida logo ali adiante.
