Jurandir Soares

Guerra na Ucrânia completa quatro anos

A pior notícia é que o conflito seguirá por tempo indefinido

A “operação militar especial” desfechada por Vladimir Putin contra a Ucrânia, destinada a durar 10 ou 15 dias e resultar na destituição do presidente Volodimir Zelensky, completa hoje quatro anos. E sem perspectiva de terminar, apesar de todo o desgaste para ambos os lados. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Análises Razumkov e o Kyiv Security Forum indica que apenas 17% dos ucranianos acreditam que o conflito acaba neste ano. O mesmo estudo revela que três entre quatro ucranianos acreditam que, se a Ucrânia aceitar a cessão de territórios em troca da paz, a Rússia não irá parar e voltará a atacar mais adiante, para tomar mais áreas.

ANTECEDENTE

A convicção dos ucranianos está baseada em fatos recentes. Em 2014, após a invasão da Crimeia, foi firmado um acordo para pôr fim às hostilidades. E, em 2022, Moscou voltou a atacar a Ucrânia, com vistas a tomar as quatro províncias do leste, que formam a região do Donbas – Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhzhia – e anexá-las a seu território. Hoje, a Rússia ocupa a maior parte dessas províncias, cerca de 20% do território ucraniano. Para terminar a guerra, Putin quer que a Ucrânia entregue a totalidade da área, mesmo as partes que não tomou. E o que é mais grave e que dá razão para as preocupações futuras dos ucranianos: não aceita a presença de uma força internacional de paz na região. Uma força que seria formada por contingentes da Alemanha, da França, do Reino Unido e de outros países do Velho Continente.

ABANDONO

Hoje, o maior problema para a Ucrânia é o abandono a que ela foi relegada pelos EUA. O presidente Trump insiste num acordo para pôr fim à guerra, mas que resulta justamente na entrega daqueles territórios ucranianos. No entanto, Kiev segue tendo grande respaldo dos europeus. Eles entendem que estão jogando, neste momento, com seu futuro geográfico, político e econômico. E, neste caso, o temor não é só com os avanços de Vladimir Putin, mas de Trump também. Vide a questão da Groenlândia e a das tarifas. O interesse dos europeus é trazer a Ucrânia, senão para a Otan – que foi a razão alegada por Putin para a invasão –, pelo menos para a União Europeia. “A Europa não tem outra opção que não seja apoiar a Ucrânia”, ressalta Orysia Lutsevych, analista do Centro de Pensamento da Chatham House, sediada em Londres. “Porque se trata de uma ameaça existencial para a Europa”, acrescenta.

RESPALDO

Em recente reunião realizada em Munique para discutir a segurança do continente, a União Europeia decidiu investir de forma pesada na defesa e na ajuda à Ucrânia. Até agora, os europeus já destinaram 194 bilhões de euros ao governo de Kiev e também foi dada a luz verde para mais uma ajuda de 90 bilhões de euros como salvaguarda financeira ao país, num momento extremamente crítico, em que a Ucrânia tem enfrentado um dos invernos mais duros dos últimos tempos. O objetivo é ajudar a manter a resistência ucraniana, apesar de todo o desgaste que o conflito armado já causou. Tudo dentro da premissa de que é preciso fazer Putin parar a qualquer custo.

MORTES

A propósito, o número de russos mortos nesta guerra tem sido muito maior do que o de ucranianos. Dados do Centro Internacional de Estudos Estratégicos (CSIS), sediado em Washington, indicam que o número de baixas ucranianas é estimado entre 500 e 600 mil – em comparação com 1,2 milhão da Rússia – entre mortos, feridos e desaparecidos. Ainda segundo o relatório, a Rússia estima entre 275 mil e 325 mil perdas em combate, em comparação com aproximadamente 140 mil mortes de soldados da Ucrânia. O problema da continuação desta guerra é que significará um número de mortos ainda maior de ambos os lados. E não só de soldados, mas também de civis. Além da destruição do país e da imigração populacional para outros territórios. Calcula-se que cerca de sete milhões de ucranianos foram buscar refúgio em outras nações. Então, a triste notícia neste dia em que a guerra completa quatro anos é que ela seguirá por tempo indefinido.