Jurandir Soares

Guerra no espaço

O anúncio feito pelos Estados Unidos de que já possuem armas posicionadas em órbita da Terra abriu uma nova e preocupante etapa na disputa militar entre as grandes potências

O anúncio feito pelos Estados Unidos de que já possuem armas posicionadas em órbita da Terra abriu uma nova e preocupante etapa na disputa militar entre as grandes potências. A revelação foi feita em 14 de setembro pelo secretário da Força Aérea americana, Troy Meink, durante uma conferência militar em Maryland. Segundo ele, Washington dispõe de “armas de controle espacial” capazes de proteger as forças americanas contra ações hostis. Os detalhes, porém, permanecem secretos: não foram informados nem a quantidade nem os tipos de armamentos. A reação de Rússia e China foi imediata. Pequim advertiu contra a transformação do espaço em um campo de batalha e pediu que os Estados Unidos interrompam a expansão de suas capacidades militares no espaço. Moscou, por sua vez, defendeu que a órbita terrestre permaneça livre de qualquer arma e voltou a defender a desmilitarização do espaço. O episódio confirma que aquilo que durante décadas parecia ficção científica está se transformando em uma dimensão concreta da competição estratégica entre as potências.

ARMAS

O termo “armas no espaço” não significa necessariamente mísseis disparados contra cidades a partir de satélites. Entre as possibilidades estão sistemas capazes de atacar ou inutilizar satélites adversários, equipamentos de interferência eletrônica, sistemas cibernéticos, lasers capazes de prejudicar sensores e outras tecnologias destinadas a impedir que um satélite cumpra sua função. A importância militar desses equipamentos é enorme porque os exércitos modernos dependem dos satélites para comunicação, navegação, reconhecimento, transmissão de dados e alerta antecipado de ataques. Destruir ou simplesmente neutralizar um satélite pode significar, portanto, retirar uma parte importante da capacidade militar do adversário sem necessariamente disparar contra seu território. Washington não revelou qual dessas tecnologias já colocou em órbita.

PERIGO

O grande perigo está na possibilidade de uma guerra terrestre começar a ser travada também acima da atmosfera. Um ataque contra um satélite poderia provocar uma reação em cadeia: o país atingido poderia responder contra outro satélite, depois contra sistemas de comunicação ou de vigilância, ampliando rapidamente o conflito. Há ainda o problema dos destroços. A destruição de um satélite pode espalhar milhares de fragmentos em órbita, capazes de atingir outros equipamentos e criar o chamado efeito de “síndrome de Kessler”, dificultando durante anos a utilização de determinadas regiões do espaço. Uma guerra orbital, portanto, poderia prejudicar não apenas os militares, mas também comunicações, navegação, meteorologia e atividades civis.

NUCLEARES

A comparação com as armas nucleares exige uma distinção importante. O Tratado do Espaço Exterior, de 1967, proíbe colocar em órbita armas nucleares e outras armas de destruição em massa. Ele, entretanto, não proibiu de maneira abrangente todas as armas convencionais ou sistemas capazes de atacar satélites. É justamente nessa área cinzenta que se desenvolveu boa parte da atual competição espacial.

Uma arma nuclear em órbita teria potencial muito maior. Uma explosão nuclear no espaço poderia produzir efeitos capazes de destruir ou inutilizar numerosos satélites, inclusive de países que não participassem do conflito.

CORRIDA

A maior preocupação agora é que a revelação americana produza exatamente aquilo que Rússia e China dizem querer evitar: uma corrida armamentista espacial. Se Washington possui armas em órbita justificando-as como resposta às ameaças de Moscou e Pequim, os dois países podem considerar necessário ampliar suas próprias capacidades. E cada avanço de um lado poderá ser apresentado pelo outro como justificativa para um novo avanço.

O resultado seria uma lógica semelhante à da Guerra Fria, mas em um ambiente muito mais sofisticado. Na corrida nuclear, a destruição mútua funcionou durante décadas como fator de contenção. No espaço, entretanto, a velocidade das tecnologias, a dificuldade de distinguir sistemas defensivos de ofensivos e a falta de regras específicas para muitas dessas armas tornam o equilíbrio ainda mais delicado.

O anúncio namericano não significa que uma guerra espacial esteja próxima, mas mostra que ela deixou de ser apenas uma hipótese distante.