Jurandir Soares

Guerra sem definição

Na medida em que se estende territorialmente, o conflito também se amplia em termos de participantes. Mais de mil civis morreram até o terceiro dia de confronto

Na medida em que o presidente Donald Trump enfatiza que irá destruir a Marinha do Irã e, no momento em que um navio de guerra iraniano é atacado por um submarino dos EUA em águas territoriais do Sri Lanka, a dedução é de que esta caça poderá acontecer em qualquer parte do mundo. Informações da Human Rights New Agency dão conta do afundamento desse navio, com 80 mortos. Já o número de civis mortos até o terceiro dia de confronto chega a 1.097, segundo a mesma organização. Não se tem o número de mortos dentre os membros da Forças Armadas.

De outra parte, Israel declara que irá eliminar cada um que for designado para suceder o aiatolá Ali Khamenei. Considerando que só no ataque que vitimou o líder religioso morreram 49 figuras do alto escalão iraniano, segundo a Casa Branca.

EXPANSÃO

Na medida em que a guerra se estende territorialmente, também se amplia em termos de participantes. Logo no primeiro momento de reação iraniana tivemos envolvidos Kuwait, Catar, Bahrein, Emirados Árabes e Arábia Saudita. Já na segunda-feira se estendeu para o Líbano, com as ações de Israel contra o Hezbollah, e para o Chipre, com ataque iraniano contra base do Reino Unido. E, nesta terça-feira, veio a notícia de ataque iraniano na Turquia.

Como o Chipre é um país membro da União Europeia, em solidariedade, Grécia, França e Reino Unido decidiram enviar sistemas antimísseis, caças militares e fragatas para aquela ilha do Mediterrâneo. Já o caso da Turquia é mais grave. O país é membro da Otan, a Organização dos Países do Atlântico Norte, e, pelo estatuto da entidade, quando um país membro é atacado, todos os demais têm que sair em sua ajuda. Ainda não é o caso dessa mobilização. Até porque o governo turco minimizou o ato. Mas há o precedente. Já a França enviou o porta-aviões de propulsão nuclear Charles De Gaulle para o Mediterrâneo. Tudo se amplia.

CONTESTAÇÃO

Em meio à ampliação da guerra também despontam os questionamentos sobre a legalidade da ação desenvolvida por Israel e EUA. Dentro do próprio Congresso americano têm vozes se levantando contra o ataque, por não se amparar no Direito Internacional. Também aliados importantes dos EUA têm contestado a legalidade da operação, por mais que haja uma unanimidade de que o regime vigente no Irã é nefasto e precisa ser derrubado.

O primeiro a desgostar Trump foi o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, o qual disse que o ataque é ilegal, e o pior, pouco eficaz, porque “não se modifica um regime político desde os ares”. Starmer toca num ponto crucial que é a necessidade de tropas em terra para dar suporte a um novo governo que possa surgir. E isto é algo que Trump não quer fazer, por correr o risco de envolver soldados americanos em campanhas extensas e traumáticas, como foram os casos do Vietnã, Iraque e Afeganistão. O cidadão americano não quer ver mais aquela cena de seus soldados retornarem ao país enrolados em sacos plásticos.

IMPASSE

Este fato parece gerar um impasse futuro nessa guerra. Como anunciou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Israel continuará a matar um a um os que foram designados para substituir Khamanei, mas quem irá dar suporte dentro do país persa a alguma figura de oposição que possa mudar o regime? Este é ponto que dá razão a Starmer.

Aliás, não foi só o britânico que, como aliado, desgostou Trump. Também o espanhol Pedro Sánchez se tornou alvo da fúria do americano, que determinou ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, “encerrar todos os acordos com a Espanha”. A ira está no fato de a Espanha negar aos EUA o uso de suas bases para ataques ao Irã. A argumentação espanhola está no fato de o Irã considerar alvo todos os países que derem suporte às ações dos Estados Unidos.

CURDOS

Como fortalecimento a uma oposição dentro do Irã, está sendo apontado o fornecimento de armas aos curdos iranianos. Lembrando que esses fazem parte de uma nação, o Curdistão, que ficou dividida em terras do Irã, Iraque, Síria e Turquia. Todos esses países lutam por sua independência. Então, mudar o foco dos curdos de uma luta por independência para outra de tomada de poder no Irã vai uma diferença muito grande. Pouco viável. Assim, o que se tem é uma guerra se expandindo e sem uma perspectiva de definição.