As eleições em Israel produziram um resultado que, além de expor a divisão da sociedade, coloca o país diante de um delicado impasse político. Nenhum dos candidatos conseguiu alcançar os 61 parlamentares necessários para formar maioria no Parlamento, o Knesset. Pelas projeções da imprensa israelense nesta quarta-feira, o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, deve conquistar 53 cadeiras, enquanto seu principal adversário, o general Gadi Eisenkot, ex-chefe das Forças Armadas e representante da centro-direita, deve ficar com 48. O curioso é que, para governar, um dos dois grandes blocos terá de buscar apoio em um dos partidos árabes com representação parlamentar, justamente aqueles que setores da direita israelense preferem manter afastados do poder.
Diante do resultado, caberá ao presidente Isaac Herzog consultar as legendas e indicar um parlamentar para tentar formar o novo governo. A disputa, entretanto, vai muito além da matemática eleitoral. As eleições acontecem sob a sombra dos atentados do Hamas, em 7 de outubro de 2023, e das consequências da resposta militar israelense. Netanyahu enfrenta o peso de um dos maiores fracassos de segurança da história do país, agravado por acusações de que teria sido alertado, por interlocutores do Catar e do Egito, sobre os preparativos do grupo terrorista e não teria tomado providências. A guerra que se seguiu devastou Gaza e aprofundou o isolamento internacional de Israel.
RESPONSABILIDADE
Em uma democracia consolidada, a incapacidade de impedir um ataque dessa magnitude poderia ter provocado a renúncia imediata de um chefe de governo. Netanyahu, porém, permaneceu no poder, apoiado por uma coalizão de direita e extrema-direita, enquanto a responsabilização pelo fracasso de 7 de outubro foi sendo adiada. O resultado eleitoral mostra que a sociedade israelense continua dividida entre a exigência de mudança e o temor de que a instabilidade política comprometa sua segurança.
DEVASTAÇÃO
A resposta militar de Israel foi apresentada como necessária para eliminar o Hamas e impedir novos ataques. Mas a ofensiva transformou a Faixa de Gaza em um território de escombros. Cerca de 70 mil palestinos morreram, segundo os números citados no debate internacional, enquanto os sobreviventes enfrentam a falta de água, eletricidade, alimentos e moradia. A perseguição aos terroristas não pode servir de justificativa para uma devastação dessa dimensão. A guerra, além de não produzir uma solução política, ampliou o sofrimento palestino e comprometeu a imagem de Israel perante o mundo.
ISOLAMENTO
Em artigo publicado nesta segunda-feira na Folha de S. Paulo, sob o título “Por que tenho baixas expectativas sobre as eleições em Israel”, o diplomata Shlomo Ben-Ami, ex-ministro das Relações Exteriores e negociador de paz, faz uma crítica contundente ao governo Netanyahu. Para ele, a administração israelense concentrou-se na guerra, negligenciando a política e afastando o país da comunidade internacional. As sucessivas ofensivas militares podem ter reforçado a popularidade de setores nacionalistas, mas não garantiram segurança duradoura nem resolveram o conflito com os palestinos.
IMPASSE
A necessidade de buscar apoio entre partidos árabes revela uma contradição da política israelense. Enquanto a direita insiste em excluí-los do poder, a aritmética parlamentar pode torná-los decisivos para a formação de um governo. Ben-Ami observa que, em uma democracia “normal”, um líder como Netanyahu teria sido forçado a renunciar ou derrubado por protestos populares há muito tempo. “Mas Israel não é uma democracia normal: seus eleitores nem sempre demonstram preocupação com a responsabilização dos governantes”. O impasse eleitoral, portanto, não é apenas uma disputa por cadeiras. É também um retrato de um país que precisa decidir se continuará subordinando seu futuro à guerra ou se finalmente buscará uma saída política.
