Uso hoje, basicamente, abordagens da coluna de Thomas L. Friedman, editorialista de política Internacional do New York Times, porque reflete, em grande parte, aquilo que há muito venho defendendo nesta coluna do Correio do Povo. O título da matéria já é revelador de uma realidade atual. Ou seja, que Israel está diante de uma decisão, no momento em que se prepara para uma grande invasão da cidade de Rafah. E esta realidade seria contrariar a opinião da maior parte da comunidade internacional, invadindo uma cidade onde estão refugiados mais de um milhão de civis palestinos, isolando ainda mais Israel. Ou negociar um cessar-fogo em troca da libertação dos reféns e abrir caminho para a retomada dos Acordos de Abrahão, vindo a estabelecer a paz e a cooperação com a Arábia Saudita, a mais próspera das monarquias do Oriente Médio, além de acabar com o eterno conflito com os palestinos.
ILUSÃO
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu insiste na tomada de Rafah para acabar com o que considera o último reduto do Hamas. Quer cumprir o objetivo que traçou ao lançar a guerra contra a organização terrorista, após os ataques do grupo a Israel, em 7 de outubro passado. Repito que Israel pode acabar com os atuais líderes e integrantes do Hamas, mas não acaba com a ideia de criação do Estado da Palestina. Podem morrer os atuais integrantes, mas virão outros. Friedman salienta que Israel sequer sabe o que fará depois em Gaza. E sugere a colocação de uma força árabe para patrulhar a área e a abertura de negociações com a facção palestina moderada, que é a do Fatah, que aceita a existência de Israel. E, com isto, abrindo caminho para a retomada das negociações com a Arábia Saudita que, antes da guerra, estavam muito próximas de uma concretização. Com a guerra, Riad estabeleceu como condição básica para um acordo a solução para o problema palestino.
Os Acordos de Abrahão, que foram mediados pelo então presidente dos EUA Donald Trump, já permitiram a Israel estabelecer relações plenas com Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão. De tempos passados, já havia acordo com Egito e Jordânia. Com a Arábia Saudita estaria formado um grande eixo de proteção contra o inimigo comum: o Irã. “Esta é uma das escolhas mais fatais que Israel já teve que fazer. E o que acho tanto perturbador quanto deprimente é que não há nenhum líder israelense importante hoje na coalizão governante, na oposição ou no meio militar que esteja ajudando consistentemente os israelenses a entender essa escolha – um pária global ou um parceiro do Oriente Médio”, escreve Friedman.
OBJETIVOS
De acordo com Friedman, o governo Biden quer evitar mais vítimas civis na Faixa de Gaza e o consequente desgaste maior de Israel, forçando-o a ter que repetir o que fez recentemente: cortar o envio de armas para Israel. O editorialista Internacional do NYT elenca três objetivos traçados pelo presidente norte-americano. “O primeiro é uma força de paz árabe que poderia substituir as tropas israelenses em Gaza, para que Israel possa sair e não ficar preso ocupando Gaza e a Cisjordânia para sempre. O segundo é o acordo diplomático entre EUA, Israel, Palestina e Arábia Saudita que a administração está perto de finalizar os termos com o príncipe herdeiro saudita. E por último, os EUA reuniriam Israel, Arábia Saudita, outros Estados árabes moderados e aliados europeus em uma única arquitetura de segurança integrada para combater as ameaças de mísseis iranianos da mesma forma que fizeram quando o Irã atacou Israel em 13 de abril.”
DIVERGÊNCIAS
O problema hoje é haver um consenso no governo israelense, dominado por radicais de direita. Neste domingo, o general Benny Gantz, integrante do Gabinete de Guerra, deu prazo até 6 de junho para que Netanyahu defina o que será feito com o futuro de Gaza. Já o ministro da Defesa, Yoav Gallant, disse que não concordaria com a criação de um governo militar no enclave. Estes posicionamentos refletem a crescente inquietação das instituições de segurança com a falta de orientação de Netanyahu sobre quem ficará responsável por Gaza quando os combates cessarem.
Para concluir, colo mais uma parte decisiva do que escreveu Friedman: “A equipe de Biden quer concluir a parte EUA-Arábia Saudita do acordo para poder agir como o partido de oposição que Israel não tem no momento e ser capaz de dizer a Netanyahu que ‘você pode ser lembrado como o líder que presidiu a pior catástrofe militar de Israel no 7 de Outubro ou como o líder que tirou Israel de Gaza e abriu o caminho para a normalização entre Israel e o Estado muçulmano mais importante. A escolha é sua’. E quer oferecer essa escolha publicamente para que todo israelense possa ver. Então, deixe-me terminar onde comecei: os interesses de longo prazo de Israel estão em Riad, não em Rafah”.
