Jurandir Soares

Israel produziu os pagers

Foi o passo marcante dado por Israel, que introduziu a guerra cibernética no Oriente Médio

O questionamento que ficou na coluna de quinta-feira, 19, sobre quem produziu ou colocou o material explosivo nos pagers usados pelo Hezbollah, que explodiram na terça e na quarta-feira no Líbano, num ataque cibernético de Israel, foi esclarecido. O primeiro questionamento feito, logo após o episódio, foi sobre a empresa Gold Apollo, sediada em Taiwan, que é produtora de pagers e de onde o Hezbollah os teria comprado. A empresa logo avisou que havia repassado para a empresa BAC, sediada em Budapeste, Hungria, a atribuição de produzir os pagers. E dali teria saído a remessa dos aparelhos que foram explodidos.

E é justamente aí que está o esclarecimento do caso. Então, vamos por partes. Durante muito tempo Israel conseguiu hackear os celulares dos membros do Hezbollah e assim ficar sabendo quais eram suas estratégias, onde estavam guardados seus equipamentos, onde planejavam atacar etc. Quando os fundamentalistas islâmicos se deram conta disto, passaram a usar os pagers em suas comunicações. Porque esses não podiam ser rastreados.

COMPRA

Daí surgiu o interesse de Israel de investigar de onde eram comprados os pagers. Souberam que, inicialmente, eram fornecidos pela empresa de Taiwan e depois passou a ser da empresa húngara. E aí que vem o esclarecimento. Usando laranjas, Israel comprou a empresa húngara e providenciou a troca de funcionários. Assim, sem que os integrantes do Hezbollah soubessem, técnicos israelenses passaram a produzir os aparelhos que eles iriam comprar. E esses aparelhos foram dotados dos explosivos e dos circuitos que permitiram serem detonados à distância.

Foi o passo marcante dado por Israel, que introduziu a guerra cibernética no Oriente Médio. E o Hezbollah sentiu o golpe. Seu líder Hassan Nasrallah disse que foi “um golpe sem precedentes”, mas avisou que Israel ultrapassou a “linha vermelha” e a vingança iria ocorrer. Porém, enquanto ele discursava pela televisão para seus seguidores, a aviação israelense bombardeava no Líbano bases de lançamento de foguetes do grupo fundamentalista. Numa demonstração da vulnerabilidade da organização. Foi bombardeado também o bairro de Dahiye, em Beirute, um bastião da milícia xiita.

TROCA

Mas, em matéria de vulnerabilidade, a recíproca é verdadeira. Nesta sexta-feira o Hezbollah lançou cerca 150 foguetes contra cidades do norte de Israel, impedindo que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu concretizasse seu intento de levar de volta para a região os moradores que foram obrigados a sair de lá, justo em função dos ataques.

O que se percebe é que Israel mudou de foco na guerra contra os inimigos regionais. Deixou um pouco de lado o Hamas, em Gaza, para se concentrar no Hezbollah que, segundo as informações de especialistas militares, tem um poder bélico muito maior que o do grupo radical palestino. Ou seja, estamos diante de uma escalada na outra frente de guerra.

ESPERANÇA

Este incremento dos conflitos na região traz à lembrança o fato de que pouco tempo atrás surgiu uma esperança de paz regional, com os chamados Acordos de Abrahão, mediados pelo então presidente americano Donald Trump. Acordos de paz de Israel com o mundo árabe, buscando uma cooperação e ações conjuntas, juntando o capital dos investidores árabes com os conhecimentos tecnológicos israelenses. Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos chegaram a assinar esses acordos. Faltou o principal país árabe, a Arábia Saudita.

Nesta quinta-feira, o príncipe saudita Mohamed Bin Salman condicionou a assinatura do acordo a uma solução do problema palestino. O que é fundamental, porque toda a violência que campeia na região se deve à falta de definição do Estado da Palestina. Aliás, nesta quarta-feira, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 124 votos a favor, 14 contra e 43 abstenções, resolução determinando a saída das forças de Israel dos territórios palestinos. O que, sem dúvida, é um primeiro e importante passo para a paz na região, já que o Estado da Palestina é reconhecido pela maior parte dos membros da ONU. Agora, ponto fundamental, será, pelo menos num primeiro momento, colocar na fronteira dos dois países uma força internacional, para garantir a segurança de Israel.

É uma pequena chama que se mantém acesa em meio à escuridão que predomina no Oriente Médio.