Jurandir Soares

Justificativa para a bomba atômica

Pronunciamento do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, dá o que pensar quando países poderosos tentam convencer os menos potentes a abrir mão de ter o mais poderoso e temido artefato bélico do mundo em troca de uma suposta ajuda para sua subsistência

O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, fez um pronunciamento nesta segunda-feira perante a Assembleia Popular Suprema, que dá o que pensar quando países poderosos tentam convencer os menos potentes a abrir mão de ter o mais poderoso e temido artefato bélico do mundo em troca de uma suposta ajuda para sua subsistência. Esta é a proposta que os Estados Unidos têm oferecido ao norte-coreano. Este, no entanto, fez uma alegação e uma lembrança que também dão o que pensar.

A alegação que ele fez é a de que a bomba se constitui em um poderoso fator de dissuasão. Tendo sua posse, ninguém vai se atrever a atacá-lo. E disse que, ao abrir mão do programa nuclear, o país se torna vulnerável. Ele não citou, mas o exemplo que vem à mente é contundente: a Ucrânia.

ENTREGA

Vale lembrar que a Ucrânia, quando conquistou sua independência, em 1991, entregou à Rússia todo o arsenal nuclear que tinha, desde os tempos da União Soviética, em seu território. E o fez em troca de seu reconhecimento como nação soberana por parte de Moscou e do suporte para o seu fortalecimento como um novo país. Todo mundo sabe o que se deu em 24 de fevereiro de 2022, quando, sob a denominação de “operações militares especiais”, tanques russos entraram em território ucraniano, onde estão até hoje.

Daí justifica-se o pronunciamento do ditador norte-coreano: “Continuaremos a consolidar nosso status como um Estado com armas nucleares, como um caminho irreversível, ao mesmo tempo em que intensificamos nossa luta contra forças hostis”, disse ele, segundo a agência estatal KCNA. Vejam que, segundo informação da agência AFP, apesar de sanções e isolamento diplomático, a Coreia do Norte é considerada hoje uma potência nuclear consolidada, com dezenas de ogivas e capacidade de produzir muitas outras. O regime também investe em sistemas de lançamento mais avançados, como mísseis balísticos intercontinentais de combustível sólido, que podem ser acionados rapidamente.

REALIDADE

No mesmo pronunciamento perante a Assembleia Popular, Kim disse o seguinte: "A realidade mundial atual, em que a dignidade e os direitos de Estados soberanos são impiedosamente violados por força e violência unilaterais, ensina claramente qual é a verdadeira garantia da existência e da paz de um Estado". Uma sutil referência ao Irã.

Diante dessa realidade, é de se perguntar se o Irã, que está sendo bombardeado, irá concordar em abrir mão de seu programa nuclear e de seus mísseis balísticos em troca do fim da guerra. Conforme escreveu Vitória Damasceno na Folha de S. Paulo, a “questão maior é que o ataque (ao Irã) deixou para os norte-coreanos a clara mensagem de que a posse de armas nucleares é precisamente o trunfo do país para impedir que tenham o mesmo destino de outros rivais dos EUA. Sem querer, Trump mandou a mensagem para Kim – e ele a recebeu”.

UCRÂNIA

No entanto, incontestavelmente, a Ucrânia é hoje o exemplo mais acabado de um país que foi iludido por uma potência maior. A Ucrânia herdou o terceiro maior arsenal nuclear do mundo, devolvendo todas as armas à Rússia até 1996. A transferência foi formalizada pelo Memorando de Budapeste, de 1994, e se deu em troca de garantias de segurança e ajuda econômica. De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), sediado em Londres, a Ucrânia entregou os seguintes armamentos: cerca de 1,9 mil ogivas para mísseis de longo alcance; entre 2,6 mil e 4,2 mil armas nucleares de curto alcance; mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs): cerca de 176 mísseis, incluindo 130 unidades do UR-100N (SS-19) e 46 do RT-23 Molodets (SS-24) e aproximadamente 44 bombardeiros pesados (incluindo modelos Tu-95 e Tu-160), capazes de lançar mísseis de cruzeiro com capacidade nuclear. Os silos de mísseis foram destruídos, com o último sendo desativado em 2001. Estivesse esse armamento ainda em território ucraniano, a Rússia se atreveria a fazer o que fez? Esta é a terrível conclusão a que se chega.