Dois fatos estão chamando a atenção na guerra na Ucrânia. Um deles, é que os combates, que antes se espalhavam por diversas partes entre o Leste e o Sul do país, agora estão concentrados num só ponto: a cidade de Bakhmut. E o outro, o tempo decorrente desses combates. Ocorrem há mais de um mês e, embora tenham ali concentrado suas forças, os russos não conseguem avançar. Isto que as ações estão sendo desenvolvidas ali principalmente pelo grupo mercenário Wagner, que é quem tem obtido os melhores resultados para a Rússia. As especulações são de que Moscou decidiu simplesmente assegurar suas posições já conquistadas, à espera de uma debilitação da Ucrânia pela falta de apoio Ocidental.
A Rússia parece estar se apoiando em posições como a do presidente francês, Emmanuel Macron, que foi a Pequim pedir ao presidente Xi Jinping para interferir junto a seu colega Vladimir Putin pelo fim da guerra. Macron expressou o sentimento de uma parte da Europa que está sofrendo as consequências da guerra, como o aumento nos preços de alimentos, combustíveis e componentes industriais, a alta da inflação e o crescente custo com o fornecimento de armas para Volodimir Zelensky. Só que há uma outra parte da Otan, liderada pelos Estados Unidos e com a participação de Polônia, Finlândia e outros, que está reforçando a Ucrânia para levar adiante a guerra. O objetivo é justamente o contrário do que Putin pensa para a Ucrânia. É ir desgastando a Rússia gradativamente.
Na medida em que tenta a mediação da China para acabar com a guerra, Macron também tenta estabelecer uma posição da Europa de equidistância das disputas entre Washington e Pequim. Algo que está causando um certo mal-estar, especialmente diante das ameaças da China com relação a Taiwan. Nenhum líder europeu criticou abertamente Macron, porém fontes de Bruxelas, citadas pela agência Reuters, dizem que “Macron fala em nome da França” e não dos 27 integrantes da União Europeia. Ao assumir a tribuna do Parlamento Europeu, o eurodeputado alemão Manfred Weber foi enfático: “Para proteger nossas liberdades, os democratas devem estar unidos em defesa de um mundo baseado em regras, seja na Ucrânia, seja em Taiwan. Devemos reforçar nossa aliança com os EUA”. Porém, a própria Casa Branca procurou colocar, pelo menos publicamente, panos quentes na disputa. Através do porta-voz John Kirby, disse: “Nos sentimos cômodos e confiantes na excelente relação bilateral que temos com a França e a relação que o presidente tem com o presidente Macron. Assim como ressaltamos o fato de estarmos trabalhando juntos em tantos temas distintos”.
Acontece que a posição da União Europeia com relação à China é uma espécie de morde e assopra. No início do mês, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, teceu críticas ao relacionamento com a China. Uma semana depois estava em Pequim negociando acordos comerciais com os chineses. Lembrando que a posição europeia sobre o tema já fora fixada em outubro, quando declarou Pequim “um rival sistêmico e um “competidor difícil”.
Porém, em que pese a tudo isto, não deixa de ser “um sócio com o qual temos que colaborar em todos os âmbitos, sejam políticos ou econômicos”.
Porém, para Macron, “em um mundo em crise, a Europa deve converter-se em uma potência não equidistante, mas autônoma com relação à China e aos EUA. E para isto deve reforçar sua independência econômica e militar, além de definir seus interesses, nem sempre coincidentes com os dos Estados Unidos”. O detalhe que o presidente francês parece esquecer é que a defesa da Europa sempre teve nos EUA o seu principal protagonista. No caso da Otan, que é a aliança militar de defesa da Europa, quem coloca mais dinheiro e mais e poderosos armamentos são os Estados Unidos.
