Jurandir Soares

Maduro ofendeu-se

O veto do Brasil ao ingresso da Venezuela no Brics foi o bastante para começar um bombardeio partindo de Caracas

Está se incrementando nos últimos meses algo que ninguém imaginava: uma briga entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Nicolás Maduro. Agora, chega-se ao ponto de Maduro chamar para consultas o embaixador da Venezuela em Brasília, Manuel Vadell, o que no jargão diplomático é o ponto inicial para o rompimento de relações. O motivo seriam “as grosserias do governo brasileiro”, numa alusão às falas do assessor presidencial para assuntos internacionais, Celso Amorim. Este, depois de críticas da Venezuela ao governo brasileiro, pisou nos calos de Maduro, dizendo que até agora ele não apresentou os números da eleição que diz ter vencido.

O comunicado divulgado nesta quarta-feira pelo governo venezuelano afirma que Amorim “se comporta como um “mensageiro do imperialismo norte-americano”. Aliás, tudo que acontece de ruim na Venezuela é apontado como culpa do imperialismo norte-americano. Além de convocar o embaixador Manuel Vadell, o regime também chamou o encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Caracas, Breno Hermann.

AMIGOS

Historicamente, Lula e Maduro sempre foram dois grandes amigos e aliados, que compactuavam dos mesmos princípios políticos. Muito embora se soubesse que o regime venezuelano se afastava, cada vez mais, dos princípios democráticos que, embora alguns deslizes da Suprema Corte, se pratica no Brasil. Mesmo assim, Lula tentou defender o regime de seu aliado junto aos presidentes latino-americanos, reunidos em Brasília, buscando dar-lhe um verniz de democracia, o que não foi engolido pelos participantes do encontro.

Com a escancarada falcatrua da eleição presidencial de 28 de julho, tornou-se impossível para Lula continuar defendendo seu aliado. Aliás, o mesmo ocorreu com outro que era grande amigo e aliado de Lula, o ditador da Nicarágua Daniel Ortega. Mesmo assim, o Brasil não assinou uma declaração contra violações dos direitos humanos na Venezuela, promovida na ONU, em setembro último, por Estados Unidos e Argentina, com adesão de Canadá e países da União Europeia.

VETO

Diante da descarada forma que Maduro arrumou para dizer que ganhou a eleição, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma perseguição aos legítimos ganhadores do pleito, que foram obrigados a deixar o país, não restou outra opção a Lula. E seu primeiro ato foi vetar a entrada da Venezuela no Brics, algo que só pode acontecer por consenso dos cinco países fundadores, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Este ato foi o bastante para começar um bombardeio partindo de Caracas. O primeiro a se manifestar foi o procurador-geral do Ministério Público, Tarek William Saab, dizendo que o presidente Lula “teria sido cooptado pela CIA, a Agência de Inteligência norte-americana. Na ocasião, Maduro achou que seu compatriota foi longe demais e pediu desculpas a Lula.

No entanto, no último dia 26, o procurador voltou à carga. Tarek William Saab disse que o presidente Lula forjou seu acidente doméstico para não comparecer à cúpula do Brics, realizada de 22 a 24 de outubro em Kazan, na Rússia. Sem provas, Saab disse que “fontes diretas e próximas do Brasil” o informaram que Lula usou o episódio como álibi para evitar desconfortos com o presidente Nicolás Maduro por ser contra a entrada da Venezuela no bloco.

CUIDADOS

O curioso é que as críticas de Maduro não são endereçadas diretamente ao presidente Lula. Agora, por exemplo, a crítica que provocou a reação de Celso Amorim fora feita ao Itamaraty. Maduro criticou funcionários da chancelaria brasileira, que disse ser “um poder dentro do poder do Brasil” e que “sempre conspirou contra a Venezuela”.

Ao tentar explicar a decisão tomada pelo Brasil quanto à Venezuela, Amorim revelou uma posição extremamente contraditória do governo brasileiro. Ele disse, quanto ao ingresso no Brics, que “o Brasil concordou com Cuba e não concordou com a Venezuela, porque existe este mal-estar que eu espero se dissolver à medida que as coisas se normalizarem”. Então, a Venezuela não é aceita por falcatrua na eleição, o que está correto, mas e Cuba? Que legitimidade tem aquele tipo de eleição de um só partido em Cuba, país que desde 1959 vive sob uma ditadura?

Enfim, o fato é que os governos de Venezuela e Brasil estão com relações estremecidas, qual dois namorados que brigam, mas ambos ficam ansiosos pelo reatamento.