Jurandir Soares

Mais um recuo de Trump

Para o presidente do EUA vale aquela máxima: “é louco, mas não é burro”. Sentiu o que poderia lhe ser altamente prejudicial nessa guerra tarifária

A bronca do consumidor norte-americano jogou a favor da China e o presidente Donald Trump resolveu tirar celulares, computadores e outros aparelhos eletrônicos da lista de produtos taxados procedentes da China. Afinal, como escreveu John McCormick no Wall Street Journal, “nenhum americano está disposto a pagar 10 mil dólares por um smartphone”. Claro que há um certo exagero na afirmação, tendo em vista que um aparelho desses nos EUA custa de 600 a 1.500 dólares. Mesmo assim, com as taxas o preço iria, no mínimo, triplicar no mercado norte-americano.

Para Trump vale aquela máxima: “é louco, mas não é burro”. Sentiu o que poderia lhe ser altamente prejudicial nessa guerra tarifária. Apesar de que tudo o mais que é passível de ser taxado e procedente da China terá alta significativa para o consumidor americano.

BRECHA

O governo chinês aproveitou a brecha para sugerir a Trump acabar com esta confrontação. A qual, diga-se de passagem, não é boa para ninguém. E é muito possível que haja mais um recuo estratégico por parte do americano, pois ele já fez insinuações de que o chinês Xi Jinping é seu amigo e teria deixado saber que quer negociar.

Depois do estrondo causado pela escalada de taxas que impôs a quase todos os países do mundo, Trump acabou recuado e taxando todos, igualmente, em 10%. A suspensão foi anunciada apenas 13 horas após sua entrada em vigor, mas o presidente americano negou que tenha recuado. “É preciso ser flexível”, disse. Tudo dentro de sua estratégia de causar impacto. E, nessa mesma estratégia, estava a definição de ter a China como o único inimigo.

UNIÃO

Há um outro ditado que diz: “Se você não consegue derrotar seu inimigo, una-se a ele!”. Este ditado, aliás, serve tanto para Trump, como para Xi. Afinal nenhum vai conseguir derrotar seu oponente. E, em a guerra tarifária continuando, quem vai sofrer será a população. De ambos os países. Só que, em termos de reações dessas populações, há uma diferença. A chinesa está sob uma ditadura e, como tal, acostumada a sofrer calada. Protestar contra o regime pode significar, no mínimo, a prisão.

Já a norte-americana não. Vive sob uma democracia, na qual as manifestações são livres e os políticos precisam avaliar bem todas suas decisões. Daí mais uma declaração de Trump: “Em algum momento, espero que em um futuro próximo, a China perceba que os dias de explorar os EUA e outros países não são mais sustentáveis nem aceitáveis”, escreveu em sua plataforma Truth Social.

TEMPO

O fato é que tem agora mais tempo para seu enfrentamento com a China e muito menos consequências negativas do que teve quando resolveu enfrentar todo o mundo. Naquela ocasião, teve que reverter rapidamente sua decisão diante do caos gerado para as empresas com ações na Bolsa de Nova Iorque. Além do que estava se estabelecendo de forma contundente a perda de credibilidade dos EUA como um porto seguro para os investidores.

Se depender da China, há negociação. A porta-voz He Yongqian afirmou que a China deseja negociar com base nos princípios de “respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação” e resolver adequadamente as diferenças por meio do diálogo.

COMPETIÇÃO

Até será possível um diálogo e uma trégua na guerra de taxas, mas não se pode esquecer que hoje a China não só é o maior competidor dos Estados Unidos, como também almeja ultrapassá-lo e tornar-se a primeira economia mundial. E há economistas que afirmam que isto pode ocorrer até o fim desta década ou meados da década de 2030.

Só que, embora todo seu extraordinário crescimento dos últimos dez anos, a China diminuiu substancialmente este ritmo. E mais, os EUA se deram conta de que era preciso combater a expansão chinesa pelo mundo, em especial pela América Latina. A primeira ação de Trump já foi tomada com relação ao Panamá, onde agiu para impedir o controle de empresas chinesas sobre aquela via navegável.

DEBOCHE

O problema é que a estratégia trumpista para a região se dá com características de deboche. Basta observar o que disse o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Referiu-se à América Latina como um quintal de Washington e afirmou que o presidente Donald Trump vai trazer a região de volta à influência do governo americano. A declaração foi feita em entrevista à Fox News, que foi ao ar na quinta-feira (10). Hegseth também disse que o governo do democrata Barack Obama (2009 a 2017), anterior ao primeiro mandato de Trump, permitiu que a China aumentasse sua influência sobre os países latino-americanos.

“O presidente Trump disse ‘não mais’. Vamos recuperar o nosso quintal”, afirmou Hegseth. “Estamos ajudando a recuperar o Canal do Panamá da influência comunista chinesa.” Aí é de se perguntar, se a culpa do avanço chinês na América Latina é de Obama, por que Trump não fez nada quando o sucedeu?