A passagem de forma espantosa do furacão Milton pela Flórida leva a uma reflexão a respeito do aumento que está ocorrendo com as catástrofes naturais. Não se pode esquecer que na própria Florida passou há dez dias o furacão Helena, bem menos agressivo que o Milton, porém deixou 234 mortos. Estas ocorrências nos remetem para o Brasil, onde, há pouco tempo, vivenciamos as piores enchentes da história do Rio Grande, enquanto outras partes do país, como o Cerrado e a Amazônia, ardiam em fogo em função da seca.
Estes episódios se somam a muitos outros ocorridos nas mais diversas partes do mundo. Segundo um relatório da Organização Meteorológica Mundial, OMM, ligada à ONU, nos últimos 50 anos ocorreu todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico, matando, em média, 115 pessoas todos os dias e causando perdas diárias de 202 milhões de dólares.
REGISTROS
Ainda de acordo com a OMM, nas últimas cinco décadas os desastres naturais quintuplicaram devido às alterações climáticas. Porém, têm-se esses números devido à substancial melhoria nos sistemas de registro. E o dado positivo é que, graças aos sistemas de prevenção e alerta, o número de mortes de um episódio para outro semelhante é quase três vezes inferior. Segundo o Atlas de Mortalidade e Perdas Econômicas de Eventos Extremos de Tempo, Clima e Água da OMM, no período de 1970 a 2019, houve mais de 11 mil desastres naturais registrados em todo o mundo, com mais de 2 milhões de mortes e perdas de 3,64 bilhões de dólares.
E os números são apavorantes. Os desastres que mais provocaram vítimas foram as secas (650 mil), as tempestades (577 mil), as inundações (58.700) e as temperaturas extremas (55.736).
EXPANSÃO
De acordo com o especialista em clima da OMM, Álvaro Silva, quase todas as regiões do mundo registraram eventos climáticos e meteorológicos extremos de diferentes naturezas. E deixou o alerta de que 2024 tem sido um ano particularmente ruim em termos de clima extremo, com secas, calor excessivo e inundações causando graves danos à saúde e aos meios de subsistência.
E embora nem todos os eventos climáticos extremos possam ser atribuídos à mudança climática, eles estão se tornando mais frequentes e mais perigosos devido às emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de carvão, petróleo e gás.
PREVENÇÃO
Os últimos acontecimentos climáticos aqui no Brasil e, em especial no Rio Grande do Sul, nos levam a uma indagação sobre como estamos nos preparando para novos eventos. A Agência Brasil divulgou pesquisa feita pela organização social Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) a qual mostra que 94% dos municípios brasileiros não estão preparados de forma suficiente para a prevenção de tragédias climáticas. Fazem parte desse grupo todos aqueles que têm menos da metade de um total de 25 estratégias para o enfrentamento de eventos como enchentes, inundações e deslizamentos de encostas.
O levantamento investigou, por exemplo, se existem medidas preventivas no Plano Diretor e na Lei de Uso e Ocupação de Solo. Também foi observado se existe uma lei específica para medidas de combate às tragédias climáticas, um plano municipal de redução de riscos, um mapa das áreas vulneráveis, um programa habitacional para realocação da população que vive nesses locais e um plano de contingência, entre outros dispositivos.
RIO GRANDE
Ainda de acordo com a matéria da Agência Brasil, a pesquisa revela “situação preocupante” no Rio Grande do Sul, onde o grande volume de chuvas registrado em maio deixou diversas cidades submersas, forçando mais de 600 mil pessoas a saírem de suas casas e causando mais de 160 mortes. Das 497 cidades gaúchas, 304 têm menos de 20% das estratégias verificadas. O cenário é um pouco melhor no caso de Porto Alegre: a capital do Estado detém 44% dos 25 dispositivos mapeados. Apenas uma cidade gaúcha aparece com mais de 80%: Itatiba do Sul.
