Moçambique, país lusófono do sudeste da África, vem enfrentando uma série de distúrbios que, segundo as agências noticiosas, já deixaram mais de 250 mortos. Os protestos foram desencadeados após a confirmação, dia 23 de dezembro, pelo Conselho Constitucional, da vitória da Frelimo nas eleições presidenciais de 9 de outubro, apesar das inúmeras irregularidades apontadas por observadores internacionais. Frelimo é a sigla de Frente de Libertação de Moçambique, movimento marxista que está no poder desde 1975, quando o país se tornou independente de Portugal.
Ocorre que o grupo está todo este tempo no poder e, apesar do natural desgaste, não quer entregar o comando do país. O que lá ocorre se assemelha em muito ao que está acontecendo na Venezuela. O que é corroborado pelo resultado da mais recente eleição, em que a vitória do candidato do sistema é profundamente contestada, sob a acusação de fraude. E, tal como no país nosso vizinho, o aparelhado órgão responsável pelas eleições confirmou a vitória do sistema.
COMANDANTE
Daniel Chapo, de 47 anos, o candidato da Frelimo, foi apontado o vencedor. Tão logo foi referendado o resultado, o principal candidato da oposição, Venâncio Mondlane, declarou-se vencedor legítimo da eleição e convocou os moçambicanos a paralisarem o país. Pneus foram queimados nas ruas, prédios saqueados e vandalizados, multidões enfurecidas ergueram bloqueios informais de pedágio e centenas de presos fugiram.
Observadores independentes confirmaram a existência de fraude na eleição. Fato que não surpreende, para um regime que há muito é acusado de corrupção e de lograr investidores estrangeiros. Estes acabaram se afastando desse país que é grande produtor de gás e petróleo, fazendo despencar a economia e, por conseguinte, piorar substancialmente a situação da população.
DIÁLOGO
O atual presidente do país, Felipe Nyusi, tem chamado, sem sucesso, as partes oponentes a um diálogo. O candidato derrotado, Mondlane, tal qual aconteceu com Edmundo González Urrutia na Venezuela, teve que fugir do país para não ser preso. Ele está sendo responsabilizado pelos distúrbios que estão acontecendo, resultantes da revolta de uma população cansada de um regime corrupto que está afundando o país. Mondlane fez um apelo à comunidade internacional para mediar uma solução para o país. Mas, tal qual na Venezuela, o regime não dará a mínima para os protestos de fora.
COLÔNIA
A história colonial de Moçambique começou na época das grandes navegações. Sua área foi reconhecida por Vasco da Gama em 1498 e em 1505 foi anexada pelo Império Português. Foi colônia de Portugal até 1975, quando, após uma guerra civil que durou dez anos e o fim da ditadura salazarista em Lisboa, conseguiu sua independência.
O primeiro presidente do país foi Samora Machel, que estabeleceu um estado unipartidário, baseado em princípios marxistas. E como estávamos em pleno período da Guerra Fria, a confrontação entre o Oeste capitalista e o Leste comunista, os primeiros países a dar apoio a Machel foram justamente duas expressões do marxismo, Cuba e União Soviética. E, justamente, para se contrapor ao regime comunista que se instalara, surgiu a Renamo, Resistência Nacional Moçambicana, apoiada pelo Ocidente. Que não conseguiu avançar.
DESAFIOS
Os desafios para este país são muitos. Apesar de ter um lindo litoral que se estende sobre o Índico, tem problemas de má administração e de pobreza que não consegue superar. Isto se reflete em sua classificação de 185º entre 191 países no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. A cidade de Maputo, se fosse um país, ficaria em 141º.
Em meio a este cenário, o fio de esperança vem do setor das universidades, que têm mantido intercâmbio e recebido apoio de fundos internacionais de financiamento e de universidades da Europa, Estados Unidos e até do Brasil, no desenvolvimento de pesquisas e na qualificação de recursos humanos em áreas para as quais o país é vocacionado, como o setor agrícola, por exemplo, no melhoramento de espécies vegetais, diversificando a produção e ampliando sua produtividade.
Nestes casos, como sempre, quem atrapalha é o próprio regime, podendo-se mais uma vez acrescentar: como ocorre na Venezuela.
