Jurandir Soares

Momento de lembrar Chamberlain

Trump abraçou determinação do colega russo Vladimir Putin de tomar parte da Ucrânia

Ficou evidente que o presidente Donald Trump abraçou a determinação de seu colega russo Vladimir Putin de tomar parte da Ucrânia. É o que resultou do encontro de sexta-feira, no Alasca, e que começou a ser colocado em prática na reunião desta segunda-feira na Casa Branca, de Trump com o ucraniano Volodimir Zelensky. A evidência disto começou a ser percebida já no fim de semana com as declarações tanto de Trump quanto de Zelensky.

Ao final do encontro de sexta-feira, Trump comunicou aos europeus que Putin só aceitava o cessar-fogo com a tomada das províncias do Leste ucraniano. Algo que, pelo que parece, só ele, Trump, não sabia! Pois Putin sempre disse isto. E, no domingo, Zelensky começou a admitir, pela primeira vez, que aceitaria ceder territórios em troca da paz.

EUROPA

Este posicionamento teve desde logo a repulsa da maior parte dos dirigentes europeus. Tanto que vários deles se dispuseram a ir a Washington nesta segunda-feira para acompanhar a reunião de Trump com Zelensky. E o elenco foi muito representativo: presidente francês Emmanuel Macron, primeiro-ministro do Reino Unido Keir Starmer, premiê da Itália Georgia Meloni, chanceler alemão Frederich Herz, entre outros chefes de governo. E também a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen.

O sentimento dos europeus é o da síndrome de Chamberlain. Ou seja, buscam lembrar o ocorrido em 1938, quando o então chanceler britânico Arthur Chamberlain decidiu entregar para Hitler os Sudetos – área que envolvia parte da antiga Tchecoslováquia e da Polônia – para que o alemão parasse sua investida sobre a Europa. Como conta a História, Hitler aceitou a proposta. Porém, logo depois foi em frente e deu o que a História nos conta sobre a Segunda Guerra Mundial.

CCCP

Com relação à Rússia paira a mesma desconfiança, ou seja, de que Putin vai receber o que quer agora, porém, logo depois poderá avançar sobre outros territórios, tanto da Ucrânia como de outros países vizinhos, como, aliás, já tem feito. Afinal, está cada vez mais explícita a determinação de Putin de recompor a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Isto se tornou explícito no encontro de sexta-feira no Alasca, quando o chanceler russo, Serguei Lavrov, compareceu vestindo uma camisa estampando as inicias CCCP, que é a sigla em russo para a União Soviética.

É preciso destacar ainda que, ao aceitar a entrega dos territórios ucranianos para a Rússia, todos estarão violando o Artigo 2º, parágrafo 4, da Carta da ONU, que proíbe a tomada de territórios pela força.

SEGURANÇA

A pergunta que se torna fundamental é sobre qual será a segurança da Ucrânia após o fim do conflito, mesmo que concorde em ceder parte ou toda a região do Donbas, assim como a Crimeia? Isto porque a Ucrânia ficará impedida de entrar na Otan, devendo ainda se desmilitarizar, segundo as exigências de Moscou. Quem irá defender a Ucrânia no caso de novo avanço russo pós-acordo?

Contrariando as exigências de Putin, Zelensky, no encontro de ontem na Casa Branca, pediu a Trump que lhe vendesse armamentos para equipar o exército ucraniano. Falou, inclusive, que tinha os recursos financeiros para pagar a compra. Algo duvidoso no atual contexto, tendo em vista os gastos que vem tendo ao longo destes três anos e meio de guerra.

MINÉRIOS

O que poderá servir de segurança futura para a Ucrânia são os interesses que Trump e Putin têm em seu território. Ultimamente, nem Trump e nem Putin tem falado no assunto. Mas vale lembrar que em telefonemas anteriores eles acertaram o seu botim: os minérios ucranianos. Os quais vão de lítio a terras raras. E os EUA iriam explorá-los não só no território ucraniano, mas também na parte do Leste que a Rússia irá tomar, mediante acordo com Moscou. Trump, que é um grande negociante, e não muito escrupuloso, vai querer tirar proveito da mediação que está fazendo.

Porém, tudo ainda é muito incipiente. O que fica patente por tudo que está sendo tratado é que Putin está saindo vencedor na guerra de agressão que ele desencadeou. O agressor está sendo premiado e o mundo democrático ocidental se curva perante ele. E pior: aceita a violação do dispositivo da ONU que não admite a tomada de território pela força. E, com isto, mais adiante, Putin poderá seguir em frente, imitando Hitler, enquanto Trump imita Chamberlain.