Jurandir Soares

Motivo é o antiamericanismo

Cerne da questão sobre tarifas é o antiamericanismo do presidente Lula, somado aos desafios a liberdade de expressão nos EUA decorrentes de medidas tomadas pelo STF

Parece que Bolsonaro está no topo das questões levantadas pelo presidente Donald Trump para implantar as sobretaxas de 50% sobre as exportações do Brasil para os Estados Unidos. No entanto, o cerne da questão é o antiamericanismo do presidente Lula, somado aos desafios à liberdade de expressão nos EUA decorrentes de medidas tomadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. E tudo isto é decorrência de uma série de fatos que foram se acumulando ao longo do mandato de Lula.

BRICS

A ameaça maior está na estruturação do Brics como um bloco que se contrapõe ao Ocidente, mais especificamente aos EUA, e que dá suporte aos dois maiores inimigos dos norte-americanos, a China e Rússia. No que toca a este tema, ficou flagrante a tendenciosidade da declaração do bloco feita quando do encerramento da reunião realizada no fim de semana passado no Rio de Janeiro. A declaração condena a Ucrânia por mortes de civis no território russo e não diz absolutamente nada sobre a Rússia.

Observem a inversão de valores. A Rússia, que invadiu a Ucrânia, um país independente, nem é citada. A Ucrânia, invadida, é condenada. Uma inversão total, o que, indiretamente, significa um apoio às iniciativas de Vladimir Putin. Em última análise, indo mais longe, fica a dedução de que, no caso de uma guerra entre EUA e Rússia, o atual governo brasileiro fica ao lado da Rússia.

DÓLAR

Outro aspecto, a tentativa de desbancar o dólar como moeda dos negócios internacionais. A propósito, o presidente Lula acusou uma completa ignorância sobre o sistema financeiro internacional. Em uma de suas falas de improviso – quase sempre desastradas – ele questionou: “Quem foi que estabeleceu que o dólar é a moeda dos negócios internacionais?” Ora, não sabe ele que isto foi estabelecido em 1944, já no final da Segunda Guerra, na reunião de Bretton Woods.

Mas, a propósito, imagine-se o Brasil vendendo para a China e recebendo em yuans, para a Rússia em rublos, ou com o Vietnã e recebendo em dongs, ou ainda para o Uzbequistão e recebendo em uzbeque. Vale lembrar que aqui no Mercosul, com apenas quatro países, tentaram criar uma moeda local e não conseguiram. Imagine-se nessa salada de frutas que é o Brics.

MORAES

Outro aspecto que está pesando na decisão de Trump diz respeito a medidas tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes e que são consideradas atentatórias à Emenda Número Um da constituição norte-americana que trata da liberdade de expressão. Em sua carta ao governo brasileiro, Trump foi explícito ao dizer que as taxas implantadas se davam, entre outras coisas, “por ordens judiciais que censuram mídias sociais americanas e inibem a liberdade de expressão de cidadãos dos Estados Unidos”.

Lembrando que desde de fevereiro tem processo nos EUA, movidas por empresas ligadas a Trump e a Elon Musk, após decisões que suspenderam perfis e plataformas no Brasil. A Justiça da Flórida chegou a intimar Moraes, sob argumento de que as decisões tomadas pelo ministro violam a Primeira Emenda da Constituição americana, que protege a liberdade de expressão.

LIGAÇÕES

O fato é que as decisões do governo Lula têm sido embasadas mais por aspectos políticos ideológicos do que por temas de interesse do comércio e negócios brasileiros. E nesse mergulho de corpo e alma no Brics está estabelecendo alianças com dirigentes que, em sua grande maioria, são ditadores ou comandantes de sistemas autoritários. Raras são as democracias. E nesse grupo está até a República Islâmica do Irã, comandada por um aiatolá, mas, que tem um presidente de faz de conta, em cuja posse esteve presente o vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin. E aí vale para os EUA aquela máxima: “diz-me com quem andas que te direi quem és!”.

MODERAÇÃO

O que precisamos agora não é de mais enfrentamentos, com mais sobretaxas, mas, negociação. Negociações que já vinham sendo estabelecidas entre representantes brasileiros e norte-americanos antes de estourar o presente conflito. Antes da disputa de vaidades entre Trump e Lula é preciso pensar nos interesses do Brasil. Especialmente, porque se trata do nosso segundo maior parceiro comercial e para onde exportamos produtos industrializados, inclusive aviões da Embraer. Diferentemente da China, para quem exportamos somente commodities. A estas alturas parece que o sábio conselho partiu do Itamaraty: “agir com cautela para evitar prejuízos ao Brasil”. Chega de antiamericanismo.