Tempos passados, quando se fazia um bom negócio, se dizia ter feito um negócio da China. Pois, nos dias atuais, parece que a China se tornou o foco dos grandes negócios. E isto se dá por vários aspectos. Um deles é que o país se tornou um player internacional qualificado. O que se deu em pouco tempo. Basta lembrar que pouco mais de uma década atrás nossas lojas de 1,99 eram inundadas com quinquilharias chinesas. Hoje, o país exporta produtos de alta tecnologia, que vão de smartphones a carros elétricos. Além disto, com sua Huawei domina no mundo o setor de telefonia 5G.
Soma-se a isto o programa lançado por Pequim e denominado de Road and Belt Iniciative, Iniciativa do Cinturão e da Estrada, numa tradução livre, mas, que vem sendo chamada de a Nova Rota da Seda. Fazendo menção ao programa que esteve ativo desde o século II a.C. até meados do século XV, com a sua importância diminuindo com o surgimento das rotas marítimas no século XV.
ATRAÇÃO
Para expandir pelo mundo suas parcerias e, porque não, sua dominação, a China estabeleceu este novo programa, que dispõe 1,5 trilhão de dólares para serem investidos em portos, aeroportos, estradas e ferrovias. Trata-se de um ambicioso projeto de infraestrutura e comércio, lançado em 2013, que visa conectar a Ásia, a Europa, a África e além, por meio de uma rede de rotas terrestres e marítimas. Repetindo o que os ingleses já fizeram em tempos passados, a China financia e constrói obras de infraestrutura mundo afora. A condição é de que, se o país não pagar o financiamento, os chineses assumem o controle do que foi feito. E isto já se deu em muitos lugares e não só em países pobres, mas, até na Itália, onde a prefeitura de Trieste não conseguiu pagar o financiamento das obras do porto e teve que entregar o controle.
Há um detalhe ainda mais sutil, não explicitado, é de que, em caso de guerra, essas obras podem servir de apoio às atividades militares chinesas.
FACILIDADE
Só que hoje a China não pensa em guerra, mas em expansão comercial. Busca não apenas fortalecer sua posição econômica no cenário global, mas também impulsionar o comércio internacional e promover o desenvolvimento de infraestruturas em diferentes regiões. Hoje a China tem cerca de 300 portos em aproximadamente 100 países.
Sem ser mencionada por ocasião do lançamento do programa, a América Latina já se tornou uma grande parceira da China. Dois terços dos países da região já teriam aderido ao mesmo. Aqui no Peru foi recentemente inaugurado o maior porto da América Latina. É uma obra de 3,4 bilhões de dólares, fazendo do porto de Chancay, um novo e estratégico terminal portuário de águas profundas, localizado a cerca de 70-80 km ao norte de Lima. É um projeto de grande investimento, com a participação majoritária da empresa chinesa Cosco Shipping.
BRASIL
O Brasil, com toda sua carência de obras de infraestrutura para escoamento de sua produção, evidentemente que está sendo cooptado para aderir ao programa. Porém, pelo que se viu esta semana, com toda a afinidade entre os presidentes Lula e Xi Jinping, isto ainda não aconteceu. Porém, não deixou de ser ressaltada por Lula a parceria que se estabeleceu durante sua viagem, com anunciados investimentos de 27 bilhões de reais por parte da China no Brasil. Nisso está incluída a expansão para o Brasil da montadora GWM, com vistas a ser um polo de exportações para a América Latina.
E para comprovar o aumento da influência chinesa aqui na região, tem-se em realização nestes dias em Pequim, um seminário que reúne China e Celac, ou seja, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe. Mais negócios à frente.
REAÇÃO
Vale lembrar que toda esta expansão chinesa está acontecendo numa área que, até bem pouco tempo atrás, era chamada de “quintal dos EUA”. Daí se aguardar qual será a reação de Washington. A primeira destas reações aconteceu com o Canal do Panamá, que o presidente Trump prometeu retomar. E ali se deu um recuo tanto da China quanto do próprio Panamá.
Em fevereiro último, Trump exigiu que o Panamá afastasse os chineses do controle do canal, o que acabou acontecendo. E mais, o presidente panamenho José Raul Mulino disse que o amplo acordo de seu país para contribuir com a iniciativa chinesa não será renovado e ainda pode ser rescindido antecipadamente. Resta saber qual a compensação que os Estados Unidos irão dar para que os latino-americanos deixem de abraçar os “negócios da China”.
