A concessão pela Academia Sueca do Prêmio Nobel da Paz para a organização japonesa Nihon Hidankyo, que luta pela abolição das armas nucleares, chama, mais uma vez, o mundo a uma reflexão sobre a manutenção de tais dispositivos. Ainda mais num momento em que vemos dois fatos marcantes. Um deles, a manutenção do controle dessas armas em mãos ameaçadoras como as do russo Vladimir Putin. Este, em função da guerra que criou contra a Ucrânia, seguidamente faz menção de usar tais armas. O outro, muito mais ameaçador, seria este tipo de arma cair em mãos de grupos terroristas, que estão se proliferando pelo mundo.
SURPRESA
Assim como o mundo foi surpreendido pelo terror em 2001, com o uso de aviões de carreira como armas de grande destruição, poderá ser também com o roubo e uso de uma bomba atômica. Claro que isto é muito mais complexo, porém do terror não se pode duvidar nada. Suas organizações são muito audaciosas.
Não é sem razão que este tema vem sendo debatido na ONU desde 2005. “A adoção desta Convenção, depois de anos de negociações, é um passo vital na direção dos esforços multilaterais para evitar o terrorismo nuclear”, afirmou na ocasião o então secretário-geral, Kofi Annan, em um comunicado. Vejam bem! Na época, o governo russo alertou a comunidade internacional de que não sabia onde estavam 100 armas do seu arsenal nuclear. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o tráfico ilegal de material nuclear e radioativo aumentou na última década, com 650 casos confirmados.
AVANÇOS
Reportagem do InfoRel – Relações Internacionais e Defesa, publicada em novembro de 2023, mostra como as organizações terroristas têm avançado no uso de seus armamentos. Diz, por exemplo, que “o conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas, na Faixa de Gaza, vem quebrar o paradigma de que as redes terroristas internacionais atuam com armamentos antiquados, ainda remanescentes da Guerra Fria, como os antigos foguetes soviéticos Katiuchas, lançados em território israelense até a primeira década do século XXI. No ataque iniciado em 7 de outubro, ao território israelense, houve disparos massivos de mísseis superfície-superfície que, diferentemente de ataques anteriores, possuíam maior alcance”.
DISPAROS
Da mesma forma, os mísseis do Hezbollah no sul do Líbano e aqueles disparados pelo grupo Houthis, do Iêmen, juntamente com uma dezena de drones, derrubados por um destróier da Marinha dos EUA, tinham potencial de causar sérios danos estruturais às zonas urbanas e riscos de morte à população civil.
O autor da matéria, André Luís Woloszyn, enfatizou: “Não tenho dúvidas de que se estivessem em poder de algum artefato nuclear com baixa carga radioativa ou mesmo as chamadas bombas sujas, que combinam explosivos convencionais com material radioativo, estas teriam sido utilizadas já que a destruição do Estado judeu é o objetivo principal do Hamas e de seus apoiadores, que atualmente estão longe desta capacidade”. Mas não se pode esquecer que o Irã, patrocinador dessas organizações terroristas, trabalha ativamente para obter a bomba atômica.
VENCEDORES
Daí a importância do trabalho da Nihon Hidankyo, por se tratar de uma organização que representa milhares de cidadãos que sentiram na própria pele as agruras de uma bomba atômica. Foi fundada onze anos após o lançamento pelos Estados Unidos, em 1945, das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Só na ocasião morreram 200 mil pessoas. Muitas outras morreram posteriormente em decorrência da radiação. E outras conseguiram sobreviver com as marcas das queimaduras pelo corpo. São os chamados hibakushas.
Embora o fato vá completar 80 anos em agosto de 2025, muitos sobreviventes ainda estão aí para tentar conscientizar o mundo sobre os horrores de uma guerra nuclear. O copresidente da Nihon Hidankyo, Toshiyuki Mimaki, que vibrou com o anúncio do Prêmio Nobel, ressaltou que os hibakushas “nos ajudam a descrever o indescritível, a pensar no impensável e, de alguma forma, a compreender a dor e o sofrimento incompreensíveis causados pelas armas nucleares”.
