O presidente Donald Trump não fez nenhum pronunciamento nesse sentido, mas, com certeza, deve estar arrependido da aventura em que se meteu ao aceitar o insistente convite do israelense Benjamin Netanyahu para atacar o Irã. Os fatos demonstram que ele cometeu um grande erro de avaliação com relação à resistência e às consequências de sua aventura bélica.
Decorrência disso, a popularidade de Trump não para de cair, já estando com sua aprovação limitada a 36%. O que para sua vaidade é algo terrível. Lembrando que quando assumiu seu segundo mandato – e do alto da ampla vantagem que conseguiu sobre sua opositora Kamala Harris – seu prestígio ultrapassava os 70%.
ERRO
A decisão de avançar militarmente sobre o Irã expôs fragilidades estratégicas que foram subestimadas pela Casa Branca. A expectativa de uma operação rápida e de baixo custo político se desfez diante da resistência local e da complexidade do cenário regional. Os gastos do Pentágono só no primeiro mês de guerra ultrapassaram os 11 bilhões de dólares.
A constatação é de que houve uma leitura equivocada do contexto geopolítico, ignorando fatores históricos e a capacidade de reação interna. O resultado está sendo uma operação prolongada, com impactos que vão muito além do campo militar.
PRESSÃO
Internamente, o governo passou a enfrentar uma crescente pressão política. Setores do Congresso, inclusive aliados, começaram a questionar a condução da guerra e os seus reais objetivos. A opinião pública também reagiu. Protestos e manifestações contrárias à intervenção ganharam força, refletindo o desgaste de uma decisão que não apresentou resultados concretos no curto prazo. A convicção é de que estes fatores estarão influenciando nas eleições de novembro para renovação da Câmara dos Representantes e do Senado Federal. A perda da maioria republicana na Câmara já é dada como certa, ficando em dúvida a questão do Senado.
ISOLAMENTO
No plano internacional, a ofensiva contribuiu para ampliar o isolamento dos Estados Unidos. Países tradicionalmente alinhados passaram a adotar uma postura mais cautelosa, evitando associação direta com a estratégia adotada por Washington.
Esse distanciamento enfraqueceu alianças e reduziu a capacidade de articulação diplomática, deixando o governo norte-americano mais exposto a críticas e menos capaz de construir consensos. Evidência maior deste distanciamento está relacionada à Europa, que se negou a embarcar na aventura trumpista. Manifestação mais contundente foi a do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ao ser convocado a participar da desobstrução do Estreito de Ormuz: “Esta guerra não é nossa!”.
IMPACTO
Os efeitos econômicos da guerra também começaram a se manifestar. O aumento dos gastos militares, somado à instabilidade nos mercados internacionais, gerou preocupações quanto ao impacto nas finanças públicas e no crescimento econômico. O aumento do preço do petróleo serviu muito bem para as petroleiras, que faturaram 30 milhões de dólares por hora no primeiro mês da guerra. Mas provocou uma reação em cadeia, cujo ato mais recente é a múltipla suspensão de voos pelas companhias aéreas, das mais diversas partes do planeta. Inclusive dos EUA.
Além disso, estabeleceu-se uma instabilidade entre as monarquias do Golfo Pérsico, que tinham no turismo seguro uma de suas grandes fontes de renda. De resto, afetou cadeias de suprimento e elevou o custo de energia, contribuindo para um ambiente econômico mais adverso tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos.
RECUO
Diante desse cenário, sinais de possível recuo começaram a surgir. Embora sem admitir publicamente um erro, o governo passou a adotar um discurso mais cauteloso, indicando abertura para soluções diplomáticas.
Esse movimento é visto como uma tentativa de conter danos e recuperar parte da credibilidade perdida. Ainda assim, os custos políticos e estratégicos da decisão inicial já se mostram difíceis de reverter no curto prazo. E os passos da guerra seguem indefinidos.
