O Uruguai realizou eleições presidenciais neste domingo, 27, e a observação dos números finais nos remete a uma comparação com o que aconteceu aqui no Brasil neste mesmo dia. Os números uruguaios apontaram que vamos ter um segundo turno a 24 de novembro, em que estarão competindo o candidato da Frente Ampla, o professor de História Yamandú Orsi, de 57 anos, que obteve 43,9% dos votos, e o representante do Partido Nacional, ou Blanco, o veterinário Álvaro Delgado, de 55 anos, que obteve 26,8%.
Porém, o que nos remete a comparar com o Brasil são os números decorrentes do processo de votação. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, nós tivemos uma abstenção de quase 35%, o que faz com que, somando os percentuais de abstenções, votos em branco e votos nulos, temos 42%. Mas isto não foi um fenômeno de Porto Alegre. Aqui apenas refletiu a realidade do país. A taxa geral de abstenções no país ficou beirando os 30%. No Uruguai o percentual de brancos e nulos foi de 4,9% e de abstenções de 6,1%. O somatório uruguaio indica que 89% da população votou em um dos candidatos.
REFLEXO
Faço esta comparação para referendar o que se constata no Brasil: uma descrença cada vez maior em nossas instituições políticas. Poderíamos acrescentar ainda a descrença no Judiciário, mas este é outro assunto. A presente eleição deveria marcar uma maior presença do eleitorado, porque estávamos elegendo os prefeitos. Ou seja, aqueles que vão tratar das coisas das nossas cidades. Porém, o que prevalece é a forma como a política está sendo conduzida no país, com fundos eleitorais, emendas partidárias e outros dispositivos mais, que fazem o dinheiro do cidadão contribuinte tomar rumos desconhecidos.
Então, faço esta comparação entre Brasil e Uruguai só para mostrar que, enquanto por aqui estamos cada vez mais desiludidos com nosso sistema, por lá eles ainda têm um elevado grau de confiança.
EXEMPLOS
No Uruguai, historicamente, a política era dividia entre os partidos Colorado e Nacional, também chamado de Blanco. Porém, desde fins do século passado estruturou-se uma oposição mais à esquerda, reunida no que se chamou de Frente Ampla. E esta formação governou o país por três legislações seguidas neste século, perdendo a última eleição para o atual presidente Luís Lacalle Pou.
No atual pleito, Lacalle Pou está apoiando o candidato Álvaro Delgado, enquanto Yamandú Orsi tem o apoio do ex-presidente e figura icônica do país José Mujica. Este, inclusive, fez na reta final da campanha um discurso emocionado de apoio a Orsi, salientando que, aos 89 anos e sofrendo de câncer, esta seria sua última participação “antes de ir para o lugar aquele de onde não se volta”.
CORDIALIDADE
O ponto marcante no Uruguai é de que, apesar das diferenças políticas, a sucessão de presidentes tem-se dado sempre diante da maior cordialidade. A faixa presidencial tem passado de um para outro em meio a abraços e votos de sucesso, conforme condiz a uma democracia. No presente pleito, o candidato do Partido Colorado, Andrés Ojeda, advogado de 40 anos, ficou em terceiro lugar, com 16% dos votos. O somatório dos demais candidatos foi de 3%. Assim, que seria necessária a soma dos votos de todos os oponentes de Orsi para poderem batê-lo. O que indica que o segundo turno deve apontar o retorno da Frente Ampla ao governo uruguaio.
SUÍÇA
O Uruguai tornou-se conhecido na região não só pela qualidade de sua carne e de sua lã, mas, muito mais, por seu sistema financeiro, o que lhe valeu o título de Suíça da América. Em outras palavras, o Uruguai sempre foi um paraíso fiscal.
O país tem mantido uma certa estabilidade econômica nos últimos anos, porém, tem enfrentado um problema que é crescente na América Latina, a violência. Conhecido por ser o pioneiro em liberdades sociais, o Uruguai ainda enfrenta problemas relacionados à segurança das mulheres no país. Apesar de ter leis que buscam defender e resguardar mulheres, a violência de gênero ainda é frequente. Porém, a rapidez com que crescem os números da violência é o que assusta. Longe ainda de números de Brasil, México, El Salvador etc, mas preocupantes. Apesar de a maconha ter sido liberada no país, os conhecidos ajustes de contas entre traficantes estão presentes. Enfim, é este o país que o vencedor irá administrar. Ou seja, um país onde a população ainda não está decepcionada como a brasileira.
