Jurandir Soares

O gabinete e a guerra

Futuro secretário de Estado no governo Trump disse que a Ucrânia precisa negociar a paz com a Rússia e não tentar recuperar territórios pela força

As escolhas que estão sendo feitas para compor o secretariado de Donald Trump estão indicando como o presidente eleito se conduzirá à frente da Casa Branca pelos próximos quatro anos. Começo a análise pelo cargo mais importante de um governo depois do presidente. Trata-se do secretário de Estado, o equivalente nosso ao ministro de Relações Exteriores, ou seja, aquele que conduzirá a política externa do país.

O designado para o cargo, o senador pela Flórida Marco Rubio, 53 anos, é neto de imigrantes cubanos. Aqueles que fugiram da revolução socialista de Fidel Castro e que se deram bem no país das oportunidades. Rubio é contrário a qualquer normalização de relações com Cuba ou com a Venezuela. É um linha dura com Irã e com a China.

UCRÂNIA

Ponto marcante é sua posição sobre a Ucrânia. Disse que o país precisa negociar a paz com a Rússia e não tentar recuperar territórios pela força. Como senador, votou sempre contra o envio de ajuda para a Ucrânia. Posições que vêm ao encontro do que já declarou Donald Trump, ao dizer que tomaria posse num dia e no outro terminaria com a guerra na Ucrânia. O que concretizaria a entrega para a Rússia dos territórios tomados na região do Donbas, dentro do quadro que tracei na coluna publicada no sábado, 9.

A posição daquele que será o conselheiro de Segurança Nacional, o deputado pela Flórida Michael Waltz, segue o mesmo rumo. Assim como a secretária de Segurança Interna, a governadora de Dakota do Sul, Kristi Noem. Todos querem o fim da ajuda à Ucrânia. Sabe-se que, sem esta ajuda, a Ucrânia não consegue sustentar a guerra.

AVANÇOS

E a propósito da guerra, a Rússia está tão confiante de que ficará de posse das áreas que tomou no Leste da Ucrânia que já está providenciando até a recuperação delas. Edifícios e casas que foram destruídos estão sendo restaurados. Negócios estão voltando a funcionar. Ao mesmo tempo a Rússia fez nesta quarta-feira o maior ataque com mísseis contra a capital, Kiev, desde agosto.

Já para expulsar os ucranianos da região de Kursk, que tomaram em julho, estão sendo usados soldados norte-coreanos, mediante acordo de defesa mútua feito entre Moscou e Pyongyang.

IMIGRAÇÃO

Voltando a Trump, outra sua grande preocupação é com a imigração. E fica claro que voltará a linha dura para a fronteira, com medidas tão controvertidas como aquela do seu primeiro governo, quando separou as crianças dos pais. Para tal já foi nomeado o “czar das fronteiras”, Tom Homan. Durante o governo de Barack Obama ele já atuou como diretor da Agência de Imigração e Alfândega – ICE, na sigla em inglês. Foi responsável por um número recorde de deportações. Marca que, disse ele, pretende superar.

Outro arquiteto da política de tolerância zero, Stephen Miller, será indicado como vice-chefe de Gabinete, posto que lhe dará amplos poderes para as questões migratórias.

EFICIÊNCIA

Uma das nomeações mais badaladas e que vem reforçar a teoria de fim da ajuda para a Ucrânia é a do empresário Elon Musk. Ele vai dirigir, junto com o empresário Vivek Ramaswamy, o novo Departamento de Eficiência, cujo objetivo é reduzir as despesas governamentais em três trilhões de dólares, até 4 de julho de 2026, quando o país completa 250 anos de independência. Então, adeus ajuda à Ucrânia.

O objetivo será uma grande reforma administrativa no âmbito governamental, que será realizada “com faca entre os dentes”, segundo Ramaswamy. Será fazer o governo atuar como uma empresa, evitando o excesso de regulamentações que travam os empreendimentos.

TERMOS

Por fim quero referendar o que já coloquei anteriormente. A única maneira para não arrasar com a Ucrânia seria estabelecer o fim da guerra, com a entrega à Rússia dos territórios tomados e com o levantamento das sanções econômicas. Porém, a Ucrânia teria o direito de ingressar na União Europeia e na OTAN, para ter a proteção da Aliança Atlântica, impedindo Putin de novas aventuras. Pois, em fazendo, teria um confronto direto com as forças da Aliança Atlântica. Isto seria o mais racional, mas não é de duvidar que Trump deixe Zelensky “pendurado no pincel”. O que seria trágico.