Jurandir Soares

O poder da ONU

Trump tem algo pessoal contra o secretário-geral da ONU, António Guterres, e por isto disse que a ONU não está à altura de seu potencial

Dentre as múltiplas manifestações do presidente Donald Trump em seu pronunciamento na abertura da Assembleia Geral da ONU está a crítica contundente ao que considera a inoperância do organismo internacional. Esta crítica deixa dois aspectos a serem analisados. Em primeiro lugar, é preciso considerar que a mesma tem um aspecto pessoal. É contra o secretario geral António Guterres, que tem sido um crítico da forma de atuação de Trump. Por isto, disse que a ONU não está à altura de seu potencial.

Mas, Trump também tocou num ponto crucial que tem sido a inoperância da ONU para resolver conflitos. O americano aproveitou para fazer seu proselitismo, dizendo que ele e não a ONU quem teve que mediar o fim de sete guerras. O que não é bem verdade no que toca às guerras. Mas, é verdade que as Nações não têm conseguido consenso para por fim a conflitos. Porém, isto se dá, fundamentalmente, por um detalhe: o poder de veto que possuem cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que são Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.

INTERESSES

Sempre que um tema é colocado em discussão, a proposta pode ter o apoio de 14 dos 15 membros do conselho, mas, acaba sendo vetada por um, na defesa de seus interesses ou de um importante aliado. Esta é uma das aberrações criadas quando do surgimento da ONU, em 1945, pelos países vencedores da Segunda Guerra Mundial. Assim, por exemplo, os EUA não deixam passar qualquer condenação a Israel, como a Rússia não deixa em relação à Belarus ou a China em relação à Coreia do Norte.

Este é um dos aspectos que pesam para que a entidade não consiga um histórico efetivo de resolução de conflitos ou de outros problemas. Além disto, acontece que, em alguns casos, o unilateralismo está se sobrepujando ao interesse coletivo. Por isto que Guterres se queixou do enfraquecimento de entidades como a Organização Mundial do Comércio ou a Organização Mundial da Saúde. Ambas vêm sido enfraquecidas ultimamente, justo pelas pressões do governo Donald Trump.

TEMOR

Hoje o mundo vivencia duas guerras – Gaza e Ucrânia – sendo que está última tem a potencialidade de levar o mundo para o que antecedeu e justificou a criação da ONU: a guerra mundial. Ao chegar aos 80 anos a entidade mundial tem este grande desafio pela frente. Até porque a situação envolvendo Rússia e Ucrânia torna-se a cada dia mais tensa. Sendo que nesta quarta-feira o presidente Trump afirmou que os países da Otan devem derrubar artefatos que sobrevoarem seu território, sejam drones ou aviões de guerra.

Esta situação levou o secretário Guterres a enfatizar que “os pilares da paz e do progresso estão ruindo”. Por isto fez a defesa do multilateralismo e o fortalecimento das regras internacionais. Algo cada vez mais difícil de ser alcançado diante da corrida armamentista, que cada vez se acelera mais.

IMPORTÂNCIA

Porém, se no aspecto político a atuação da ONU deixa a desejar, o mesmo não acontece no que toca à ajuda humanitária. Segundo Guterres, 175 milhões de pessoas pelo mundo dependem da ajuda da ONU. São os refugiados de guerra, os reassentados em virtude de catástrofes climáticas, etc. Um dos problemas que a organização enfrenta hoje para a manutenção desses programas é a redução que está acontecendo na sua arrecadação.

Os principais programas e agências da ONU para ajuda humanitária incluem o Programa Alimentar Mundial (PAM), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). O Programa de Voluntários da ONU (UNV) também contribui com o envio de especialistas e voluntários para diversas áreas, como emergências e direitos humanos.

CONFLITOS

Em meio às atividades humanitárias, a ONU segue entendendo que a maneira mais eficaz de diminuir o sofrimento humano, os enormes custos económicos e as suas consequências, é evitar conflitos. Historicamente as Nações Unidas desempenharam um papel importante na prevenção de conflitos, usando a diplomacia, os bons ofícios e a mediação. E este é que tem sido um dos resultados que a organização não tem conseguido alcançar, conforme é seu objetivo. Daí um dos motivos para as críticas do presidente Trump.