A guerra no Golfo Pérsico teve, mais uma vez, diante de Donald Trump, uma oportunidade concreta de caminhar para o fim. O Irã apresentou uma proposta para reabrir o Estreito de Ormuz e retomar, em sete dias, as negociações por um acordo de paz. A resposta do norte-americano, no entanto, foi a rejeição. No sábado, Trump confirmou que havia recusado a oferta, sustentando que os iranianos não têm mais dinheiro para continuar o confronto.
É difícil compreender que, diante de um conflito que já ultrapassou os limites regionais, com consequências sobre o abastecimento mundial de energia, a economia e a segurança de milhões de pessoas, a diplomacia continue subordinada à vontade de um presidente que parece confundir negociação com capitulação do adversário.
PROPOSTA
O plano iraniano previa a reabertura do Estreito de Ormuz e a retomada das conversações sobre o encerramento da guerra. Teerã queria que a discussão sobre o fim das hostilidades e a segurança marítima viesse antes das negociações sobre seu programa nuclear. A proposta também se inseria numa disputa sobre o controle da passagem marítima, as sanções norte-americanas e o bloqueio naval aos portos iranianos.
Washington, por sua vez, exige o abandono do enriquecimento de urânio e garantias de que o Irã não desenvolverá armas atômicas. A diferença é fundamental: os iranianos querem primeiro interromper o conflito; Trump exige que aceitem previamente condições que representam uma rendição estratégica. É legítimo que os Estados Unidos busquem impedir a proliferação nuclear. O que não faz sentido é transformar essa preocupação numa justificativa para prolongar indefinidamente uma guerra de consequências imprevisíveis.
RESISTÊNCIA
Trump afirma que o Irã perderá porque não tem mais dinheiro. A crise econômica iraniana é real, agravada por décadas de sanções, inflação elevada e pelo bloqueio das exportações de petróleo. Mas confundir dificuldades financeiras com incapacidade militar é um erro estratégico. Um país pode estar economicamente debilitado e, ainda assim, conservar meios para continuar combatendo.
O Irã mantém capacidade de empregar mísseis, drones e forças navais para ameaçar embarcações e instalações estratégicas. Já demonstrou que pode atingir interesses estadunidenses e infraestrutura de aliados regionais. O próprio bloqueio de Ormuz constitui uma forma de pressão que não depende de uma economia próspera.
PREJUÍZOS
A continuidade do conflito é uma conta que ninguém sairá sem pagar. O Irã enfrenta destruição de infraestrutura, isolamento econômico e sofrimento de sua população. Os EUA gastam recursos militares, acumulam baixas e expõem seus soldados e interesses a novos ataques. A alegação de que o adversário está quebrado não elimina o custo de derrotá-lo, muito menos garante que a vitória pretendida seja alcançada.
Para que uma vitória total seja alcançada é preciso fazer uma invasão por terra, com soldados e armamentos. Só que a história dos EUA nesse tipo de ação é péssima. Basta lembrar Vietnã, Iraque e Afeganistão.
Para os aliados norte-americanos do Golfo, o cenário é igualmente preocupante. Arábia Saudita, Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos dependem da estabilidade regional, das exportações de energia e da segurança de suas instalações. Ataques a refinarias, terminais, portos e sistemas de dessalinização podem comprometer economias inteiras.
COBRANÇA
A história não costuma absolver governantes que, por orgulho ou cálculo político, deixam escapar oportunidades de paz.
Trump pode continuar afirmando que o Irã está falido e que os EUA venceram. Enquanto isso, porém, a guerra prossegue, os riscos aumentam e a população paga a conta.
A oportunidade perdida não foi apenas a de um acordo diplomático. Foi a de demonstrar que a força norte-americana também pode servir para encerrar conflitos, em vez de perpetuá-los.
