Jurandir Soares

Os drones de Putin

Céus de países europeus têm sido inundados por esses aparelhos

Os céus de países europeus têm sido inundados nos últimos dias por aparelhos que vieram a se constituir no mais novo e barato artefato bélico: os drones. Isto já ocorreu na Polônia, Romênia, Bélgica, Noruega e Dinamarca. E nesta quinta-feira foi a vez da Alemanha. O aeroporto de Munique teve que ser fechado, com o cancelamento de 17 voos e mais de 3 mil passageiros sem poder viajar. Isto justo no momento em que a cidade promove a Oktoberfest, podendo daí se imaginar a intensidade do movimento aeroportuário.

A primeira discussão que se estabeleceu é sobre a origem dos artefatos. O primeiro dos países membros da Otan a ter o seu espaço aéreo invadido foi a Polônia. Ali ficou praticamente comprovado que se tratavam de drones russos, pois a maior parte dos 21 que entraram no país foi abatida. Moscou primeiro negou que os drones fossem seus. Depois disse que poderiam ser drones lançados sobre a Ucrânia e que se perderam. Ora, 21 se perderam?

DEMAIS

E os demais que apareceram sobre os outros países? Putin insiste que não tem nada a ver com isto. E ainda ironiza dizendo que o Ocidente vive uma histeria. O fato é que, além da Alemanha, a Dinamarca também teve que fechar aeroporto e a Estônia viu seu espaço aéreo ser violado por um caça russo. O curioso é que nenhum dos países atingidos por drones conseguiu comprovar a procedência deles. Por aí se pode observar o estrago e a confusão que estes pequenos artefatos estão causando. Em muitos casos eles estão substituindo a ação de um caça F16, cujo preço de um novo chega a 63 milhões de dólares. Já um drone, dos que estão sendo utilizados na guerra da Ucrânia, custa 300 mil dólares. Daí a multiplicação de seu uso.

ENCONTRO

Outra curiosidade é que o aparecimento de drones por mais países europeus se intensificou nesta semana enquanto 47 líderes do continente se reuniam na Dinamarca para discutir as próximas ações em defesa da Ucrânia. Anfitriã, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, declarou que Vladimir Putin “está testando” os europeus e que “não vai parar até que seja forçado a isso”. No contexto da ajuda à Ucrânia está o envio de mísseis Tomahawk, fato que irritou profundamente Putin. O russo disse que isto provocaria nova escalada no conflito. E, possivelmente, diante disso, decidiu incrementar os ataques ao território ucraniano. E mais, denunciou o que seria uma ação direta dos EUA na guerra ao dizer: “É impossível usar Tomahawks sem a participação direta de militares americanos. Isto significaria um estágio completamente novo, inclusive nas relações entre Rússia e Estados Unidos”.

MUDANÇA

Como se observa, estamos diante do que Putin chamou de “escalada perigosa”, o que se constitui numa crescente confrontação entre as duas superpotências, numa situação bem diversa da “lua de mel” vivida por Trump e Putin no Alasca em 15 de agosto.

Vale lembrar que o presidente Trump, que antes acreditava num acordo com Putin, passou a dar apoio decisivo ao ucraniano Volodimir Zelensky. E chegou a dizer que a Ucrânia iria recuperar toda a região do Donbas e “quem sabe até um pouco mais”. Este “um pouco mais” deduz-se que se refira à província da Crimeia que a Rússia tomou em 2014.

CONFLITO

Mas enquanto os representantes europeus reunidos na Dinamarca discutem a forma de derrubar drones, outras preocupações maiores vêm à tona. Vale lembrar a advertência feita meses atrás pelo governo francês ao sistema hospitalar do país para que se prepararem para atender, até maio de 2026, um enorme contingente de soldados feridos. Ao mesmo tempo, o ministro da Defesa da Alemanha, general Boris Pistorius, declarava estar convicto de que até 2029 o seu país entrará em guerra com a Rússia.

Já o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, disse: “Gostaríamos que o ataque dos drones à Polônia fosse um erro, mas não foi. E nós sabemos disto”. Ou seja, não é sem razão que a Europa está sendo inundada pelos drones de Putin. Como disse a primeira-ministra da Dinamarca, Putin “está testando” os europeus. E, logicamente, colhendo informações para casos de ataques. Em última análise, cenário nebuloso.