Jurandir Soares

Otan se prepara para guerra com a Rússia

Uma das medidas da aliança militar foi se preparar para uma guerra com a Rússia, o que os europeus veem como inevitável diante do expansionismo de Vladimir Putin

Depois de muitas hesitações, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, reunida na semana passada em Haia, tomou algumas medidas drásticas. A primeira delas foi passar de 2% para 5% do PIB a verba que cada país membro deve destinar à organização. Esta medida não deixa de ser uma vitória de Trump, que há muito vinha cobrando seus parceiros nesse sentido. A segunda foi se preparar para uma guerra com a Rússia, o que os europeus veem como inevitável diante do expansionismo de Vladimir Putin. E o terceiro aspecto é se prepararem para a guerra sem contar com o apoio dos Estados Unidos. Donald Trump se tornou inconfiável para os europeus, tendo inclusive ameaçado de deixar a Aliança Atlântica.

Em um de seus mais recentes pronunciamentos, Trump andou relativizando o artigo 5º do estatuto da Otan, o qual diz que se um país membro foi atacado, todos os demais têm que sair em sua defesa. Ao dizer que o artigo merecia interpretação, Trump já deixou claro que poderia usar este argumento, no caso de se ver envolvido em uma guerra de um de seus parceiros com outro inimigo externo.

ALEMANHA

O primeiro alerta com relação a um rearmamento em função da expansão russa partiu da Alemanha. Mais especificamente, do ministro da Defesa, Boris Pistorius. Em um discurso no parlamento ele foi enfático ao dizer que as Bundeswehr, as Forças Armadas do país, devem estar prontas para uma guerra com a Rússia até 2029. Ele defende a volta do serviço militar obrigatório, extinto em 2011, e a preparação de “homens e mulheres fortes” para defender o país em uma emergência.

“Hoje, vemos mais claramente do que nunca como é importante ter uma indústria de defesa europeia e alemã que possa produzir continuamente todos os principais tipos de armas e as munições necessárias”, disse na ocasião o então chanceler Olaf Scholz, acrescentando que “o ataque da Rússia à Ucrânia, em violação do direito internacional, apresentou a toda a Alemanha uma nova realidade política de segurança”.

APOIO

O que mostra que esta política bélica alemã tem o respaldo dos dirigentes que se sucedem é a atitude do atual chanceler Frederich Merz de autorizar a Ucrânia a usar armamentos alemães dentro de qualquer parte do território russo. E mais, resolveu partir para a produção conjunta de mísseis com a Ucrânia. Os alemães resolveram inclusive aproveitar uma fábrica da Volkswagen desativada para transformá-la em fábrica de componentes bélicos.

Agora, o que mais chama a atenção é que a Europa, além de decidir enviar mais 35 bilhões de dólares em armamentos para a Ucrânia, manifestou o seu interesse em ir preparando a entrada da Ucrânia na Otan. Ora, um dos principais motivos de Putin ter invadido a Ucrânia foi a intenção do país em fazer parte da Otan. Putin deixara claro na ocasião que não toleraria o avanço de forças estrangeiras para junto de suas fronteiras. No entanto, para o porta voz da Otan, “a entrada da Ucrânia na Aliança é um processo irreversível!”.

ENFRENTAMENTO

Tudo isto deixa no ar um perigoso enfrentamento que vem pela frente. Diferentemente de Trump, que chegou a acenar a Zelensky para entregar as áreas tomadas por Putin, a Europa não aceita a tomada de territórios pela força. E invoca para isto decisão das Nações Unidas tomada logo ao final da Segunda Guerra.

A demonstração de unidade justificou a classificação da cúpula feita pelo secretário-geral da Otan, Mark Rutte, como "transformadora", embora tenha encoberto divisões. A promessa de gastos coloca os aliados europeus e o Canadá em um caminho íngreme rumo a investimentos militares significativos.

ATAQUE

"Um ataque a um é um ataque a todos", disseram os 32 países da Otan na declaração final da cúpula, em referência ao artigo 5º do estatuto da organização. Ou seja, uma maneira de alertar o presidente Trump para o compromisso que ele tem com a organização. Uma organização que, como se observa, está entrando numa arriscada empreitada. E que deixa cada vez mais possível de se concretizar a previsão do ministro da Defesa alemão, Pistoriuz: até 2029 haverá guerra com a Rússia.