O Peru está às voltas com um processo eleitoral cujo resultado está em meio a uma grande indefinição. E a apuração, que vinha se desenvolvendo de modo acelerado, estancou e tende a levar dias para chegar ao seu final, segundo as informações do comitê eleitoral. O país está por decidir entre a representante da direita Keiko Fujimori, defensora do liberalismo, do combate à violência e estabilidade institucional, por um lado. E por outro, pelo representante da esquerda Roberto Sánchez, que é a voz dos movimentos populares, em oposição às elites de Lima. As informações desta quarta-feira davam conta de que, apesar de já ter 97,8% das urnas apuradas, o resultado final pode demorar ainda por duas semanas ou até o fim do mês.
PARELHO
Chama a atenção a pequena diferença. Enquanto Sánchez tem 50,02% dos votos, Keiko tem 49,98%. Faltam apurar algumas urnas do interior e, a maior parte, do exterior. É aí que reside uma esperança de Keiko, pois, na votação de fora do país, ela está predominando. Pode-se presumir ainda que, devido ao resultado muito parelho, quem perder pedirá recontagem de votos. O interessante é que, quem vencer, irá receber um país dividido politicamente, mas, que na economia vai bem. O Peru destaca-se por sua resiliência e estabilidade, impulsionada por um forte controle inflacionário e gestão fiscal equilibrada. O país projeta um crescimento econômico de 3,2% para 2026 – patamar superior à média latino-americana –, amparado no forte desempenho da indústria de mineração.
RESULTADOS
O país é o terceiro maior produtor mundial de cobre e firmou acordos de livre comércio vitais com a China e os Estados Unidos, que impulsionam suas exportações. Apesar dos fundamentos macroeconômicos sólidos e da expansão consistente do PIB, o país enfrenta desafios estruturais. A renda e a riqueza continuam muito concentradas, e a taxa de pobreza é de 34%. Além disso, a nação tem testado a blindagem de sua economia em meio a um longo período de instabilidade e turbulências no cenário político local.
E é justamente o resultado dessa turbulência política que chama a atenção. Na última década, o Peru trocou, praticamente, um presidente a cada ano. Entre estes, dois renunciaram e quatro foram destituídos.
LAVA JATO
Acontece que no Peru funcionou o julgamento de uma operação que, no Brasil, foi anulada: a Lava Jato. Corrupção, lavagem de dinheiro e rebelião estiveram no topo das condenações. E lá também teve presença marcante da construtora brasileira Odebrecht. Um dos presidentes condenados, Alan Garcia, cometeu suicídio em 2019, quando estava prestes a ir para a prisão. Antes dele, o pai de Keiko, Alberto Fujimori, que governou o país de 1990 a 2000 e morreu em 2024, foi condenado a 25 anos de prisão por corrupção e crimes contra a humanidade. Alejandro Toledo, governante de 2001 a 2006, foi condenado a 20 anos de prisão por ter aceitado propinas milionárias ligadas ao esquema da Odebrecht durante a concessão de rodovias em seu mandato.
SEQUÊNCIA
O antecessor, Ollanta Humala (julho de 2011 a julho de 2016), envolveu-se com o recebimento de doações ilícitas da construtora Odebrecht e do governo venezuelano para financiar suas campanhas eleitorais, além de envolver-se em lavagem de dinheiro. Levou 15 anos de prisão. O mesmo envolvimento teve Pedro Paulo Kuczynski (julho de 2016 a março de 2018), que renunciou. Martin Vizcarra (março de 2018 a novembro de 2020) foi condenado a 14 anos de prisão. A Justiça provou que ele recebeu subornos milionários de empreiteiras em troca de obras públicas durante a época em que foi governador de Moquegua. Pedro Castillo, mentor do atual candidato Roberto Sanchez, foi condenado a 11 anos e 5 meses de prisão pelos crimes de conspiração e rebelião, após tentativa frustrada de autogolpe em 2022, quando tentou dissolver o Congresso. Mais dois impeachments ainda aconteceram, com Dina Boluarte (dezembro de 2022 a outubro de 2025) e José Jeri (outubro de 2025 a fevereiro de 2026). Ou seja, muita corrupção, mas com as correspondentes condenações.
VISITA
Para não deixar passar, ressalto que vale a pena visitar o Peru, que possui, junto com o México, uma das civilizações pré-colombianas mais adiantadas da América Latina, cujas obras ainda estão presentes. E pela gastronomia. Lima detém uma relação de restaurantes laureados pelo Guia Michelin.
