Para um país que viveu os terríveis tempos de domínio de Pablo Escobar e de seus assassinatos, ver um candidato à presidência sofrer um atentado traz de volta o temor de que tudo pode acontecer novamente. Hoje, no entanto, a Colômbia está mais estruturada. Porém, o atentado mostra que ainda acontecem fatos que remontam ao passado não muito distante. E estes fatos vêm num crescente.
O ataque ao senador de 39 anos Miguel Uribe, praticado por um jovem de 14 anos, deixa a obrigação para as autoridades descobrirem quem são os mandantes. Se são políticos ou narcotraficantes. Ou, o mais provável, gente que transita nessas duas áreas.
HISTÓRICO
O histórico de candidatos, jornalistas, juristas e agentes de segurança mortos na Colômbia ao tempo de Escobar é grande. Um dos episódios mais marcantes foi a tentativa de matar o então candidato à presidência César Gaviria, que prometia uma atuação pesada contra o narcotráfico. Em 27 de novembro de 1989 Gaviria iria fazer um voo interno na Colômbia. Porém, acabou não embarcando, o que não impediu que uma bomba fosse detonada quando o avião sobrevoava o município de Soacha. O atentado vitimou todos os 107 ocupantes da aeronave.
Outro nome de expressão assassinado foi o candidato à presidência da Colômbia pelo Partido Liberal e apontado como favorito para vencer as eleições, Luís Carlos Galán. Foi atingido por uma rajada de tiros em 18 de agosto de 1989, quando participava de um comício.
RECUPERAÇÃO
Após a eliminação de Escobar, a Colômbia chegou a viver um período de relativa trégua, mas também de transformações. A maior delas aconteceu em Medellin, onde era o quartel general do traficante. Tive oportunidade de visitar a Comuna 13, uma antiga favela de onde Escobar partia para suas ações. Ali o poder público conseguiu restabelecer a ordem e promover o desenvolvimento, a ponto de ser hoje um grande ponto de atração turística.
Servida por teleférico e escadas rolantes, a Comuna 13 oferece as mais diversas atividades, desde artesanato, música, dança, teatro e comércio, com destaque para os produtos desenvolvidos na própria comunidade.
ACORDO
Outro ponto significativo foi o acordo firmado com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas, as Farc. Isto permitiu às forças governamentais chegarem a muitas áreas que antes lhes eram inacessíveis. Hoje, muitos dos ex-integrantes das Farc estão até no Parlamento colombiano.
No entanto, um contingente da guerrilha não aceitou o acordo e preferiu seguir na clandestinidade, embalado pelos acordos de proteção ao narcotráfico. Tampouco o governo conseguiu fazer acordo com outro grupo guerrilheiro, o ELN, Exército de Libertação Nacional. Este também preferiu seguir na clandestinidade. A razão, a retomada da força do narcotráfico.
RETROCESSO
Assim, depois de um período de relativa trégua, a criminalidade recrudesceu na Colômbia. O país encara a maior onda de violência da última década após diversos ataques de grupos armados que deixaram mais de 100 mortos e 36 mil deslocados. Assassinatos e ameaças contra líderes políticos quase triplicaram entre 2015 e 2023, sinalizando um progressivo enfraquecimento das instituições.
A popularidade do presidente Gustavo Petro está em baixa. Petro está no cargo desde agosto de 2022 e desde o começo de 2023 registra alta taxa de desaprovação. Em maio, 57% dos colombianos o desaprovavam, segundo o instituto Invamer Poll.
CANDIDATO
O histórico familiar do senador Miguel Uribe Turbay, alvo do mais recente atentado, é também de violência. Ele é filho da jornalista Diana Turbay. Ela foi sequestrada em 1990 por um grupo armado que era liderado por Pablo Escobar e foi morta durante uma operação de resgate em 1991. Apesar do nome igual, Miguel não é parente do ex-presidente Álvaro Uribe. Mas é neto de Júlio César Turbay Ayala, que governou o país de 1978 a 1982. Elucidar quem mandou matá-lo é o mais novo desafio para o governo Petro.
