No momento em que Jerusalém volta a sofrer um violento atentado, que vitimou seis pessoas, vem o anúncio do governo israelense de que estaria disposto a aceitar a proposta do presidente Donald Trump para um cessar-fogo em Gaza. Isto acontece também no mesmo momento em que o chefe da diplomacia israelense, Gideon Saar, declara que Israel irá retaliar se a Palestina for reconhecida. Então, vamos por etapas para desdobrar estas três colocações, envolvendo a guerra que está sendo travada em Gaza, bem como a questão palestina.
URGÊNCIA
O fundamental no presente momento é acabar com esta guerra absurda, que começou com a insanidade do Hamas, ao praticar terrorismo em Israel, matando e sequestrando pessoas. E teve continuidade com a justificável caça ao Hamas. O problema é que, em nome dessa caça aos terroristas, Israel extrapolou os limites do bom senso, resultando na morte indiscriminada de civis, cujo número de mortes já teria chegado a 60 mil. E mais ainda, a fome a que foram submetidos. A desproporcional reação de Israel levou muitos governos a considerar genocídio o que está acontecendo em Gaza. O próprio ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert disse que seu país está cometendo crimes de guerra em Gaza, com matança indiscriminada de civis. O jornalista Thomas Friedman, editor de Internacional do New York Times desde 1995, disse que “Israel está se tornando um estado pária”. E ressaltou aquilo que é dito por muita gente, inclusive dentro de Israel, que Netanyahu quer prolongar a guerra para se manter no poder. Para Friedman, a mortandade que Netanyahu provoca “é o subproduto inevitável de sua política de prolongar a guerra em Gaza para se manter no poder, evitar seus julgamentos criminais e impedir qualquer comissão de inquérito israelense sobre sua profunda responsabilidade no fracasso em evitar o ataque surpresa do Hamas em 7 de outubro de 2023.
ESTADO
Este horror que acontece em Gaza levou uma série de países de expressão, como França, Canadá, Bélgica, Austrália e Reino Unido, a anunciar que iriam reconhecer o Estado Palestino, por ocasião da Assembleia Geral da ONU, neste mês. O Reino Unido condicionou sua posição a um cessar-fogo em Gaza. Vale lembrar que, dos 193 países membros da ONU, 144 já reconheceram o Estado Palestino. O atual governo israelense está fazendo de tudo para inviabilizar tal estado. Primeiro com as colônias judaicas estabelecidas na Cisjordânia e, agora, com a intenção de ampliar a ocupação, partindo ao meio o território, de modo a dividi-lo. A Cisjordânia e a Faixa de Gaza são os territórios já designados pela ONU e reconhecidos pela maior parte das nações do mundo, como a área para a instalação da almejada pátria dos palestinos.
DIFERENÇA
Acontece que enquanto não for resolvida a questão palestina, Israel não terá sossego. Este pensamento dos radicais que hoje dirigem o país é só para prorrogar a insegurança dos israelenses. Se não resolverem a situação, o Hamas continuará angariando novos integrantes, porque a ideia não morre. E outro erro é colocar na mesma posição o Hamas e a Autoridade Palestina, que dirige a Cisjordânia. Israel diz que não aceita nenhum dos dois governando Gaza ao fim da guerra. Pois, enquanto o Hamas quer a luta armada para destruir Israel e conseguir o estado, a AP e o Fatah, que é o partido que a dirige, já declararam múltiplas vezes que aceitam a existência de Israel e defendem a existência de dois estados, convivendo com fronteiras definidas e seguras. E no atentado de ontem em Jerusalém, o Hamas aplaudiu os autores e o Fatah condenou o ato.
FUTURO
Assim, os detentores do poder em Israel – assim como o presidente americano Donald Trump – deveriam meditar sobre o porquê de tantos países defenderem o Estado Palestino. Será que todos eles querem a destruição de Israel ou veem nos dois estados a possibilidade da paz? Israel invoca sempre a questão da sua segurança e da sua sobrevivência. No que está certo. Mas, enquanto não for resolvido o problema palestino, estes dois fatores continuarão presentes. Agora, com um tratado que envolva as grandes potências e os países árabes, a paz é possível. E tudo pode ter por base os Acordos de Abrahão criados por Trump. Ele, que ambiciona tanto o Nobel da Paz, poderia pilotar a ampliação dos acordos que media e se consagrar com esse feito. Mas, antes de tudo, é preciso romper com o radicalismo que se torna cego ao não perceber o caminho a ser trilhado.
