Jurandir Soares

Razões da vitória de Trump

Dois aspectos pesaram muito na escolha do eleitor: economia e imigração. A economia, sabe-se bem, toca no bolso do cidadão

Dois aspectos pesaram muito na escolha do eleitor: economia e imigração
Dois aspectos pesaram muito na escolha do eleitor: economia e imigração Foto : HENRY NICHOLLS / AFP

Donald Trump conseguiu uma vitória avassaladora nas eleições dos Estados Unidos. Não só foi eleito para novo mandato presidencial, como conseguiu maioria tanto no Senado Federal quanto na Câmara dos Representantes. Algo até certo ponto surpreendente tendo em vista o empate técnico que era apontado nos chamados estados-pêndulo. Pois Trump venceu em quase todos, sendo mais expressiva a vitória na Pensilvânia, que tinha a marca de eleger os dois últimos presidentes. Trump ganhou na Pensilvânia em 2016 e conquistou a Presidência. Biden ganhou ali em 2020 e, igualmente, chegou à Casa Branca. Agora chegou a vez de Trump novamente.

FATORES

Dois aspectos pesaram muito na escolha do eleitor: economia e imigração. A economia, sabe-se bem, toca no bolso do cidadão. E quando o seu poder aquisitivo baixa, ele se volta contra quem administra. O cidadão americano vem enfrentando problemas econômicos desde 2008, quando estourou a chamada Bolha Imobiliária. Na ocasião, muita gente perdeu sua moradia e outros tantos tiveram que abrir mão de muitas coisas para poder pagar. Foi uma das piores crises da história recente do país.

Quando a população estava se recuperando, veio a pandemia. A Covid-19 impactou fortemente na economia do país, a ponto de o Federal Reserve apontar que a queda de 3,5% do PIB registrada em 2020 se constituiu no pior resultado desde 1946, ou seja, o período imediato ao fim da Segunda Guerra. Em fevereiro de 2020, o país entrou em recessão. Fechamento de empresas e perda de emprego foram algumas das consequências mais graves. Foram mais de 10 milhões de empregos que sumiram, fazendo a taxa do desemprego chegar a 6,7%. As exportações caíram 13% e o consumo pessoal diminuiu 3,9%.

RECUPERAÇÃO

A reversão da situação começou a acontecer a partir da chegada do verão de 2021, com um crescimento de 7,4% e a retomada das atividades econômicas. No entanto, no país das oportunidades, os benefícios não alcançaram toda a população. Justamente a metade mais pobre é que tem se queixado de não se beneficiar da recuperação do país. Isto ficou marcado na votação pelos resultados no que era chamado de Cinturão Azul e passou a ser Cinturão da Ferrugem – os estados que abrangem partes do Meio-Oeste e do Nordeste do país, como Pensilvânia, Ohio, Michigan, Illinois e Wisconsin. Locais com grande fechamento de indústrias.

Conforme citado por Fernanda Canzian em matéria da Folha de S.Paulo, dados do World Income Database (WID), indicam que a concentração de renda nos EUA seguiu firme nos últimos quatro anos. Fato que não é isolado, pois veio reforçar a tendência de décadas. “O WID mostra que enquanto a renda do 1% mais rico – assim como a dos 10% do topo – continuou aumentando desde a primeira vitória de Trump em 2016, a metade mais pobre permaneceu estagnada. No ano passado, enquanto os dois primeiros grupos (1% e 10% mais ricos) se apropriavam de 20,7% e 46,8% da renda, respectivamente, a metade de baixo ficou com apenas 13,4% do total.”

ENCOLHIMENTO

Resultado é que a classe média caiu de 60% da população para 50%. Para buscar a recuperação econômica, Trump, seguramente, deverá recorrer a uma tática dos republicanos: redução de impostos. Algo que deixa mais dinheiro nas mãos dos cidadãos e, como tal, fomenta os mais diversos setores do país. O fundamental é que não venha a aumentar o déficit fiscal do país, que já é de 7% do PIB, ou US$ 1,9 trilhão, para uma dívida pública que soma US$ 33,1 trilhões ou 123% do PIB.

É por isto, entre outras coisas, que Trump quer acabar com a ajuda à Ucrânia para a sustentação de sua guerra com a Rússia, pois essas remessas já chegam a US$ 67 bilhões. Dinheiro que ele acha que deve ficar para a população americana.

IMIGRAÇÃO

Outro fator que pesou na eleição e que Trump soube explorar muito bem foi a questão da imigração. Os Estados Unidos são inundados diariamente por enormes contingentes de latino-americanos querendo entrar no país. E o controle desse fluxo desenfreado coube no atual governo a Kamala Harris, que pouco conseguiu fazer no controle da entrada dos ilegais. Trump disse que esses contingentes vinham aumentar a violência e a miséria no país e que estavam comendo carne de cachorros e de gatos que abatiam. Ou seja, os adorados pets dos norte-americanos. Foi outro tema em que Trump deitou e rolou. Ou seja, vai ter a responsabilidade de controlar esse fluxo. Mas isto é problema para depois. O importante para ele é que soube usar o tema como um dos alicerces de sua vitória.