As mais recentes decisões de Donald Trump colocam os Estados Unidos diante de duas frentes de tensão que, embora diferentes em natureza, têm um ponto em comum: a dificuldade de impor a vontade de Washington sem provocar reações de outros países. No caso do Irã, depois de quase seis meses de conflito e sem conseguir alcançar uma vitória militar capaz de submeter Teerã, o presidente americano aposta agora no estrangulamento econômico. A chamada “Operação Economic Outcast” amplia as sanções e ameaça países e empresas que continuarem negociando com os iranianos com punições que podem significar sua exclusão do sistema financeiro baseado no dólar.
O problema é que a estratégia encontra pela frente a China, justamente o maior comprador do petróleo iraniano. Pequim já avisou que não aceita sanções unilaterais e que defenderá seus interesses. Ao mesmo tempo, Trump abriu outra batalha, desta vez com o vizinho Canadá, ao elevar tarifas sobre produtos canadenses e insistir, em sua retórica, na transformação do país no 51° estado americano. O primeiro-ministro Mark Carney decidiu não recuar e respondeu com a mesma lógica: tarifa por tarifa, dólar por dólar.
IRÃ
A nova ofensiva contra o Irã representa uma mudança de estratégia. Se a força militar não foi suficiente para produzir a capitulação desejada por Washington, a Casa Branca tenta agora atingir a principal fonte de sobrevivência do regime: suas relações comerciais externas. A ameaça de sanções secundárias significa que não apenas empresas iranianas, mas também governos, bancos e companhias de outros países poderão sofrer consequências caso mantenham negócios com Teerã.
É uma aposta de alto risco. O Irã possui uma extensa rede de parceiros e mecanismos para contornar sanções, além de continuar tendo no petróleo uma importante fonte de receitas. A intenção americana é transformar qualquer negociação com Teerã em uma escolha entre o mercado iraniano e o acesso ao sistema financeiro dos Estados Unidos.
CHINA
É aqui que a estratégia de Trump encontra seu maior obstáculo. A China é o principal comprador do petróleo iraniano e, segundo dados citados pela Reuters, chegou a importar cerca de 1,38 milhão de barris por dia do país em 2025. Refinarias chinesas independentes, conhecidas como “teapots”, têm especial interesse no petróleo iraniano, frequentemente vendido com desconto e negociado em mecanismos que reduzem a exposição ao sistema financeiro norte-americano.
Trump terá, portanto, de decidir até onde pretende ir. Punir empresas chinesas pode ampliar a pressão sobre o Irã, mas também pode abrir uma nova crise com Xi Jinping, justamente quando Washington procura preservar algum espaço para a negociação entre as duas maiores economias do planeta.
CANADÁ
Com o Canadá, Trump enfrenta um adversário ainda mais próximo. Os dois países possuem uma das relações comerciais mais integradas do mundo, com cadeias produtivas que atravessam diariamente a fronteira. Mesmo assim, a Casa Branca decidiu elevar para 50% as tarifas sobre determinados produtos canadenses, depois do fracasso das negociações comerciais. O novo confronto atinge setores como aço, automóveis, autopeças e outros produtos, ameaçando empresas dos dois lados da fronteira.
A questão, porém, ultrapassou a economia. A insistência de Trump em falar do Canadá como futuro 51° estado provocou forte reação entre os canadenses e ajudou a transformar a disputa comercial em uma questão de soberania nacional.
CARNEY
Mark Carney escolheu o confronto. O primeiro-ministro anunciou que o Canadá aplicará tarifas retaliatórias sobre aproximadamente 20 bilhões de dólares em produtos americanos, atingindo cerca de 700 itens, com alíquotas que chegam a 50% e entrada em vigor prevista para 8 de setembro. A promessa de Carney é clara: a resposta será “dólar por dólar”.
O resultado é uma guerra comercial entre dois países que, durante décadas, construíram uma relação baseada em integração econômica e cooperação política. Trump aposta que o peso do mercado americano obrigará o Canadá a ceder. Carney aposta que a indignação de sua população e a capacidade de retaliar permitirão resistir. E Xi Jinping aposta no poder econômico e militar da China.
