Jurandir Soares

Trump, as guerras e o Nobel

O presidente norte-americano Donald Trump tem tentado assumir o papel de mediador dos conflitos em Gaza e na Ucrânia

Ucrânia e Gaza seguem sob bombardeios. As expectativas que se tinham nos últimos dias de uma trégua, pelo menos em um destes conflitos, não se realizaram. O que parecia estar mais próximo de uma parada era o da Ucrânia, posto que o presidente russo Vladimir Putin havia manifestado sua disposição de ir a Istambul, nesta quinta-feira, 15, para encontrar-se com seu homólogo ucraniano Volodimir Zelensky. Putin roeu a corda, não foi.

Quanto a Gaza, mais uma vez os representantes do Catar, Estados Unidos e Egito – países que atuam como mediadores – se reuniram em Doha, porém sem obter também qualquer avanço no que tange à trégua.

MEDIADOR

Tudo isto para frustração do presidente norte-americano Donald Trump, que tem tentado assumir o papel de mediador desses conflitos. Aliás, Trump tem demonstrado com suas ações que seu objetivo é chegar ao fim do ano com a conquista do Prêmio Nobel da Paz. Já insinuava com isto quando dizia que terminaria com a guerra na Ucrânia tão pronto assumisse o governo. Para isto, sua estratégia procurava conciliar o útil com o agradável.

O primeiro passo para acabar com a guerra ele deu ao suspender a substancial ajuda em armas e suprimentos que os Estados Unidos davam para a Ucrânia. Sem isto, Zelensky ficou sem condições de ir adiante na guerra e teve que passar a se submeter às determinações de Trump. A ponto de passar pelo ridículo que foi o seu encontro com o americano na Casa Branca, em 28 de fevereiro último.

APROXIMAÇÃO

Ao mesmo tempo em que manietava Zelensky, Trump procurou se aproximar de Putin. E aí vai a outra parte de sua estratégia. Na medida em que busca uma maior aproximação com o líder russo, procura afastá-lo da cada vez mais crescente influência do chinês Xi Jinping. Vale lembrar que, com a guerra, Putin ficou isolado da maior parte das lideranças mundiais, com a grande exceção de Xi Jinping.

O chinês passou a ser o grande comprador dos produtos que a Rússia, pelas sanções, ficou impedida de vender para a Europa. E, com isto, fez com que a economia russa continuasse a funcionar sem, praticamente, sentir os efeitos das sanções econômicas. E mais, ficou implícito que se a Rússia fosse atacada por forças do Ocidente, a China poderia sair em sua defesa. No mínimo, com o fornecimento de armas. Assim, desarmar esta arapuca e avançar como um pacificador passou a ser o grande objetivo de Trump.

GAZA

Já as manifestações de Trump quanto a Gaza são mirabolantes. Vão desde a transformação da área numa Riviera do Oriente Médio até a constatação de que os palestinos dali estão passando fome. E cogita de os Estados Unidos assumirem a área para estabelecer ali “a paz e a tranquilidade”. Só não falou se tudo isto seria com a permanência dos palestinos que ali vivem. Cerca ocasião, falou em realocar os palestinos em países vizinhos. Porém, deve ter-se dado conta que isto não ajuda no seu caminho em busca do Nobel. Passou então a admitir a formação de um estado da Palestina sem a presença do Hamas. O que, aliás, é fundamental. Não se pode falar na convivência de dois estados – Israel e Palestina – se o Hamas continuar existindo.

REALIDADE

Tudo isto está inserido nos projetos de Trump, que visam não só o cobiçado prêmio, mas, também os grandes negócios. Para os quais ele acaba de solidificar a parceria das ricas monarquias do Golfo Pérsico, com sua passagem pela região. Como os sheiks querem uma solução para a Palestina e, ao mesmo tempo, fazerem grandes investimentos, não se pode descartar o aparentemente utópico projeto de Gaza.

O problema é que a comunidade que ali vive não tem mais tempo para esperar. Desde 2 de março, as forças israelenses bloqueiam a entrada de ajuda humanitária em Gaza, fundamental para seus 2,4 milhões de habitantes. É fome e sede se ampliando.

ISRAEL

Mostrando uma certa indignação com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Trump não incluiu Israel no seu roteiro pelo Oriente Médio. E ainda tomou duas atitudes que desagradaram os israelenses. Uma foi fazer um acordo com houthis do Iêmen para não atacarem mais navios no mar Vermelho, sem incluir o bloqueio de ataques dos mesmos a Israel. A outra foi estabelecer os parâmetros para um acordo de paz entre Israel e a Síria, sem consulta aos israelenses.

Trump reuniu-se na Arábia Saudita com o novo líder da síria Ahmed al-Sharaa, para quem propôs esse acordo com Israel. Só que Israel ocupa territórios sírios e tem feito ataques àquele país. Apesar disto, Trump lança a semente para mais um acordo entre inimigos históricos, procurando aplainar mais o seu caminho em busca do Nobel da Paz.