Jurandir Soares

Trump cai na real com Putin

Líder norte-americano diz estar ‘chateado’ com o presidente russo e ameaça com tarifas se houve um acordo de paz em 50 dias

Custou, mas o presidente Donald Trump se deu conta de que Vladimir Putin não quer saber do fim da guerra na Ucrânia. Trump passou meio ano de seu governo elogiando Putin e manifestando a esperança de conseguir cumprir sua promessa de campanha: mediar o fim da guerra na Ucrânia. Só agora ele percebe que Putin quer é continuar a guerra e concluir a tomada da parte leste da Ucrânia. Especialmente, porque já tomou áreas importantes na região.

Depois de fazer algumas declarações até inocentes, como: “estou desapontado com Vladimir, acho que ele não quer o fim da guerra”, Trump se deu conta de que o russo quer é ir em frente. Assim, depois de algum tempo, Trump teve duas decisões importantes: mandar armas para a Ucrânia e reforçar as relações com a Otan, que estavam meio abaladas.

Trump recebeu nesta segunda-feira, em Washington, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, com o qual ajustou o esquema de envio de armas para a Ucrânia, além de anunciar a imposição de tarifas de 100% à Rússia. As taxas passarão a valer se a guerra continuar após 50 dias. Trump anunciou a construção e envio pelos EUA de armas específicas para a Ucrânia, como os sistemas antimísseis Patriots, de que Kiev tanto necessita. Os armamentos serão enviados através da Otan. Aliás, ao receber Rutte, Trump deixou clara sua rearticulação com a Aliança Atlântica.

Este reforço norte-americano vem se somar ao que fora anunciado pela Alemanha de, não só enviar mísseis para a Ucrânia, mas passar a produzir este tipo de armamento junto com os ucranianos. E o principal é que todos os armamentos poderão ser utilizados, não só para defesa, mas, para ataque dentro do território russo. Ou seja, Trump, finalmente, se dá conta das intenções de Putin e se associa aos europeus no fornecimento de armas para a Ucrânia reagir.

Trump anunciou também o que chamou de sanções secundárias, ou seja, as que serão aplicadas contra os países que compram produtos da Rússia. Essas sanções poderiam chegar a 500%. O detalhe é que o principal comprador dos produtos russos é a China. E aí é de se perguntar: Trump irá comprar uma outra guerra tarifária com Pequim?

Mas, outra mudança de Trump diz respeito a um componente relativamente novo, mas, que já está sendo usado em tudo que é guerra e que os EUA pouco produziam: drones. Os pequenos objetos voadores que estão sendo usados a exaustão no conflito ucraniano. Assim, como em outros, pelas mais diversas partes do mundo. Pois, agora, o governo Trump resolveu se dedicar à produção dos artefatos.

“Nossos adversários vêm produzindo milhões de drones baratos. Antes de nós, estávamos presos em burocracias. Não mais”, disse o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Não se sabe exatamente que burocracia estaria bloqueando a produção. Parece que os norte-americanos ainda não haviam se dado conta da importância desses revolucionários e baratos artefatos. E este é mais um reforço que a Ucrânia precisa.

De sua parte, a Rússia já decidira há tempo incrementar sua produção de drones. Em 2024, foram produzidos 1,5 milhão de artefatos. Além disto, Moscou recebe do Irã os chamados drones suicidas. O fato é que este tipo de armamento passou a ser o mais usado nessa guerra, que incrementou-se nos últimos tempos. Tanto pelo avanço das forças russas dentro do território ucraniano, como pelos ataques da Ucrânia em solo russo. Ataques estes que têm chegado até Moscou. A constatação é de que a aceleração da guerra é puxada principalmente pelos ataques aéreos com drones e mísseis.

Ou seja, a guerra se incrementa e o espaço para negociação diminui. Até porque, os posicionamentos dos litigantes são bem opostos. A Rússia dá a entender que só para depois de tomar toda a região do Donbass, no leste ucraniano. Já a Ucrânia só aceita o término do conflito com a completa retirada russa de seu território. Inclusive da província da Crimeia, que a Rússia tomou em 2014.

Assim é que a solução do conflito só poderá se dar pela força. E se Trump não quiser ver seu “amigo” Vladimir Putin triunfando, terá que recuperar o tempo que perdeu, na crença de que poderia negociar com o russo. Fica a evidência de que a guerra vai se incrementar, porém, oferecendo uma nova perspectiva para a Ucrânia, que já estava perto da derrota.