Jurandir Soares

Trump: demência ou assessoria

Declarações desconexas, mudanças abruptas de posição e ataques a aliados tradicionais têm alimentado, nos bastidores e também publicamente, questionamentos sobre sua capacidade de conduzir os Estados Unidos

A liderança de Donald Trump começa a enfrentar um tipo de contestação mais sensível e delicada: não apenas política, mas também comportamental. Declarações desconexas, mudanças abruptas de posição e ataques a aliados tradicionais têm alimentado, nos bastidores e também publicamente, questionamentos sobre sua capacidade de conduzir os Estados Unidos em um momento de tensão internacional.

O cenário se agrava em meio à guerra envolvendo o Irã e aliados de Washington. Em um dia, Trump acena com negociações de paz; no outro, ameaça com destruição total. Essa oscilação, longe de parecer estratégia calculada, soa para muitos como improviso – ou pior, desorientação. A consequência direta é o aumento da incerteza global.

RUÍDO

As falas do presidente norte-americano têm gerado perplexidade até entre aliados históricos. O confronto verbal com o Papa Leão XIV é um exemplo emblemático. Trump não apenas discordou do pontífice, como o atacou publicamente, chamando-o de “fraco” e questionando sua autoridade moral.

Esse tipo de comportamento rompe protocolos diplomáticos básicos. A relação entre Washington e o Vaticano, tradicionalmente pautada pela cautela, foi substituída por uma troca de acusações públicas. O episódio evidencia não apenas uma divergência política, mas uma deterioração do padrão institucional de relações entre líderes globais. E surpreende ainda mais por serem dois cidadãos norte-americanos.

EXCESSO

Outro ponto que chama atenção é o uso de linguagem considerada inadequada para um chefe de Estado. Expressões de baixo nível, ataques pessoais e até referências de cunho vulgar passaram a integrar o repertório do presidente. A retórica, que já foi agressiva em outros momentos de sua trajetória, agora parece ultrapassar limites antes respeitados.

A exposição constante nas redes sociais amplia esse problema. Trump governa, em grande medida, por meio de postagens, sem o filtro tradicional de assessores. Isso resulta em mensagens impulsivas, muitas vezes contraditórias, que confundem aliados e alimentam adversários.

IMAGEM

Talvez o episódio mais simbólico dessa fase tenha sido a publicação, em sua própria rede social, de uma imagem em que aparece como uma figura semelhante a Jesus Cristo. O gesto foi amplamente criticado e interpretado como sinal de narcisismo exacerbado – ou de desconexão com a seriedade do cargo que ocupa. A ausência de contenção interna é evidente. Faltou, nesse caso, uma assessoria capaz de impedir a exposição ao ridículo. Em política, a imagem é parte do poder. Quando ela se torna motivo de escárnio, a autoridade se fragiliza.

EQUÍVOCO

No campo estratégico, os erros também se acumulam. A percepção de que o Irã poderia ser tratado como outros adversários regionais, como a Venezuela, revela desconhecimento ou subestimação. O regime iraniano é marcado por forte componente ideológico e disposição para o confronto, mesmo com alto custo humano. Além disso, trata-se de um país com significativo poder militar, incluindo mísseis de longo alcance e capacidade de atingir aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Os ataques retaliatórios já provocaram instabilidade regional e prejuízos a parceiros estratégicos de Washington.

RISCO

O resultado desse conjunto de fatores é um ambiente de crescente insegurança. Quando um líder oscila entre diplomacia e ameaça, sem clareza de seu objetivo, o risco de erro de cálculo aumenta. E, em um cenário de guerra, erros podem ser irreversíveis.

A dúvida que se impõe não é apenas sobre as decisões de Trump, mas sobre o sistema que deveria contê-lo. A falta de freios internos – seja por ausência de assessoria qualificada, seja por isolamento político – transforma a imprevisibilidade em norma. E quando isso ocorre na maior potência do planeta, o problema deixa de ser doméstico para se tornar global.