Jurandir Soares

Trump quer entregar a Ucrânia

Zelensky tem reiterado que um acordo não passa pela cessão de território

Enquanto Rússia e Ucrânia seguem com bombardeios mútuos, o presidente norte-americano Donald Trump tenta dar um fim à guerra, promovendo um encontro dele com o seu homólogo russo Vladimir Putin, mas sem a presença do ucraniano Volodimir Zelensky. Nos preparativos para a reunião, que ocorrerá no Alasca, Trump insinuou que Zelensky teria que entregar alguns territórios para conseguir a paz.

Zelensky tem reiterado que um acordo não passa pela cessão de território. Afinal, a Ucrânia está há três anos e meio resistindo à invasão russa justo para não entregar nada de sua área. Putin, de sua parte, já deixou claro que só vai parar após tomar a província do Donbas no Leste ucraniano

APOIO

A posição ucraniana segue encontrando o respaldo da Europa. Basta observar o comunicado conjunto emitido neste domingo, 10, pelos mandatários da França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Polônia e Finlândia. Duas observações fortes foram feitas. Uma: “As fronteiras internacionais não podem ser modificadas pela força”. A outra: “O caminho para a paz não pode ser decidido sem a Ucrânia”. Ou seja, a Europa segue defendendo a integridade territorial da Ucrânia.

ANTECEDENTES

A posição europeia toma por base não apenas o caso ucraniano, mas a tantas vezes revelada manifestação de Putin de resgatar a União Soviética. Não é sem razão que ele tem desenvolvido ações armadas contra outros vizinhos menores como Moldávia, Georgia, Azerbaijão e outros. Porém, o temor maior da Europa é com relação a outros países que estiveram sob o jugo de Moscou e que, quando ruiu a União Soviética, passaram a fazer parte da União Europeia e até mesmo da Otan. Neste rol estão Polônia, Romênia, Hungria, as nações bálticas: Estônia, Letônia e Lituânia. E mais a Finlândia, que era neutra, mas que sempre foi cobiçada por Moscou, por dividirem uma fronteira de 1.800 quilômetros.

TROCA

Ao sentir-se encurralado com relação à sua declaração de que Zelensky deveria ceder territórios, Trump mudou, falando em “trocas de territórios”. Disse ele: “Estamos vendo isto. Na realidade, estamos contemplando recuperar parte e intercambiar parte”. E mostrando como estava enrolado, disse: “É complicado, porém vamos recuperar parte e vamos intercambiar outra. Haverá um intercâmbio de territórios para a conveniência dos dois”...

Diante disto, o manifesto dos europeus ressaltou a necessidade de alcançar “uma paz justa e duradoura, com garantias de segurança sólidas que permitam à Ucrânia manter a sua soberania e integridade territorial”. Este documento tem, simplesmente, as assinaturas dos chefes de governo do Reino Unido, Keir Starmer, da França, Emmanuel Macron, da Itália, Georgia Meloni, da Polônia, Donald Tusk, da Alemanha, Frederich Merz, e da presidente da comunidade, Ursula von der Leyen. Esta seleção de aliados tenta demover Trump de qualquer intento de fazer a Ucrânia ceder territórios.

PARTICIPAÇÃO

Conforme foi expresso por sua chefe da diplomacia, Kaja Kallas, a União Europeia entende que nenhum acordo pode ser firmado sem a presença da Ucrânia e da própria UE. Posição que, evidentemente, foi referendada pelo presidente Zelensky. Afinal, o que ele mais quer é seguir o mesmo caminho de Polônia, Romênia, Hungria e outros países. Ou seja: passar a fazer parte do bloco ocidental e usufruir de todas as vantagens decorrentes da decisão, como estão usufruindo hoje muitos vizinhos da Ucrânia que, antes de ruir a União Soviética, eram dominados por Moscou.

MENOSPREZO

O grande problema hoje para a Ucrânia é que ela perdeu o fundamental apoio dos Estados Unidos. Trump chegou a parar com a ajuda a Kiev e só retomou, não pelo envio de armas direto para a Ucrânia, mas pela venda dos dispositivos para a Otan. Ou seja, está faturando com o processo. Para mostrar seu distanciamento, ele chama esta de uma guerra de Joe Biden. E insiste em dizer que os Estados Unidos forneceram 350 bilhões de dólares a Kiev ante 100 bilhões de dólares dos europeus. Dados do Instituto para a Economia Mundial, de Kiel, na Alemanha, apontam para 132 bilhões de dólares americanos e 180 bilhões de dólares continentais, até abril.

O que Trump quer é cumprir sua promessa de que terminaria com a guerra na Ucrânia. O problema é que ele quer alcançar este objetivo mediante uma capitulação ucraniana.