Jurandir Soares

Trump x Netanyahu

Quem diria, os dois grandes aliados estão brigando

Quem diria, os dois grandes aliados, o norte-americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu, estão brigando. E não é uma briguinha simples! Pelo menos de parte de Trump, é um palavrório de baixo calão. Como, por exemplo, “Você é louco pra c***”. Ou, “Que p*** você está fazendo?” A razão de tudo está na guerra que Estados Unidos e Israel decidiram fazer contra o Irã e, principalmente, no conflito que Netanyahu desencadeou no Líbano contra o Hezbollah.

RAZÕES

Há que considerar, primeiramente, que Netanyahu há muito que pretendia atacar o Irã, mas, para isto, precisava da parceria com os EUA. Depois de muitas conversas, Netanyahu conseguiu convencer Trump a acompanhá-lo na empreitada. O mote era a ameaça que o Irã representava em função de seu programa nuclear. Na realidade, uma ameaça para Israel, que está ali perto. Mas, não para os Estados Unidos, que estão muito distantes. Porém, Trump topou a parada, pensando que poderia mudar o regime no Irã, caçando o governante, como fizera com Nicolás Maduro na Venezuela. Contava com a ajuda popular devido ao alto grau de repressão praticado pelo nefasto regime dos aiatolás. Não contava com o fato de que os aiatolás logo repuseram o líder morto e que a população, que era contra o regime, passou a apoiá-lo diante da agressão externa.

IMPASSE

Os resultados da guerra acabaram sendo bem diferentes do esperado. Passados mais de dois meses do início do conflito, os EUA estão diante de um problema que não tinham antes: o fechamento do Estreito de Ormuz. O que trouxe sérios problemas para a economia norte-americana, assim como para a maior parte do mundo. Trump viu seu prestígio desabar internamente. A partir dessa constatação, passou a negociar com os aiatolás, através de interlocutores como Paquistão e Catar. Depois de muitas idas e vindas, e de uma trégua acertada em 8 de abril, chegaram a um consenso de que a guerra poderia terminar - com o Irã reabrindo Ormuz e retirando as minas marítimas e os Estados Unidos liberando os portos iranianos que haviam bloqueado, ficando a questão nuclear para ser discutida posteriormente.

ISRAEL

Mas aí surgiu o fator Israel. Netanyahu abandonou a guerra com o Irã e passou a se dedicar exclusivamente ao Hezbollah, provocando elevado número de mortes e destruição no Líbano. Teerã condicionou o término da guerra ao término dos ataques israelenses ao Líbano. Só que, para desgosto de Trump, Netanyahu e seus parceiros radicais de governo continuaram atacando. Foi aí que Trump se enfureceu, considerando que Israel estava colocando em risco os esforços diplomáticos dos Estados Unidos. Os fatos decorrentes desta ira foram relatados pelo Axios, tendo o testemunho de um assessor de Netanyahu, o qual reconheceu que houve uma reunião “tensa”.

PALAVRÕES

De acordo com o relato, Trump advertiu Netanyahu que Israel estava reagindo de forma desproporcional aos ataques do Hezbollah e comprometendo as negociações com o Irã. E teria acusado o líder israelense de ingratidão. O estadunidense também teria chamado a atenção para algo que salta aos olhos de qualquer observador: que a ampliação dos ataques ao Líbano tem aumentado a rejeição internacional a Israel e ao próprio Netanyahu. E aí vêm as colocações marcantes. “Você estaria na prisão se não fosse por mim”, numa referência ao fato de que, se deixar o governo, o israelense terá que responder a processos, inclusive por corrupção. “Estou salvando sua pele. Todo o mundo odeia você agora”.

GAZA

Israel já teve um grande desgaste com a desproporcionalidade dos ataques em Gaza, na resposta aos atos terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023. Foram mais de 70 mil pessoas mortas, na grande maioria civis, incluindo mulheres e crianças. Este, sem dúvida, foi um dos fatores que fez crescer o antisemitismo pelo mundo nos últimos tempos. Aliás, autoridades judaicas têm manifestado preocupação com esse crescimento. Naquela ocasião, Trump não ligou para os excessos de Netanyahu. Até procurou faturar em cima, anunciando um fundo de doadores para a recuperação de Gaza, que não teve adeptos. Agora, como se sentiu prejudicado, resolveu botar a boca no israelense.