Jurandir Soares

Ucrânia reage em solo russo

Kiev afirma que a operação visa “deslocar a guerra para o território do agressor”

Depois de dois anos e meio de confrontação, a Ucrânia está conseguindo fazer a Rússia provar de seu próprio veneno. Ou seja, está atacando dentro do território russo. Encorajado pelo recebimento de tanques de guerra modernos e dos eficientes caças F-16, o presidente Volodimir Zelensky resolveu partir para o ataque no território russo. O ponto escolhido foi a cidade de Kursk, situada a cerca de 30 quilômetros da fronteira.

As informações da região dão conta de que seguiam nesta segunda pelo sexto dia os confrontos entre forças ucranianas e russas. Sendo que a Rússia decidiu evacuar milhares de moradores do local e impor normas de segurança não só em Kursk, mas também em Belgorodo e Briansk, cidades fronteiriças que vêm sendo fustigadas pelas forças ucranianas. O presidente Putin decretou estado de emergência na região e mandou reforçar as tropas, depois de ter acusado ataques aéreos de Kiev.

RESPOSTA

A ação da Ucrânia se dá como uma resposta ao que vinha acontecendo a partir de Kursk e cidades vizinhas, ou seja, o lançamento dali de mísseis e drones contra cidades ucranianas. Segundo o presidente Zelensky, a partir da região foram lançados mais de dois mil ataques neste verão, o que, a seu juízo, “merecia uma resposta justa”. Já o presidente Putin classificou como “bárbara” a incursão. E aí é de se perguntar como ele classifica a invasão da Ucrânia por suas tropas. Ah!!! Eu ia esquecendo, pois ele nunca falou que seu país estava em guerra com a Ucrânia, mas que, simplesmente, estava realizando uma “operação militar especial”.

OBJETIVOS

Seja qual for o termo, o fato é que a Rússia está bombardeando a Ucrânia desde o dia 24 de fevereiro de 2022, gerando morte e destruição. A Ucrânia esteve sempre apenas se defendendo e tentando recuperar áreas tomadas por Moscou. E como a guerra era no país vizinho, a população russa não sofria nada. E assim não protestava contra Putin. Agora, vídeos percorrem a internet russa com cenas de caminhões incendiados e até aviões de ataque sobrevoando áreas em combate. Segundo o Ministério da Saúde da Rússia, 31 civis ficaram feridos e não há dados sobre baixas militares. Pois a ação das forças ucranianas mira atingir o ponto de sacudir a população russa. Mostrar a ela o que é sofrimento de uma guerra. E, como tal, levá-la a protestar contra Putin. Algo que não é muito fácil devido à repressão e ao controle da imprensa.

Com a ação passando para o território russo, a Ucrânia alivia os ataques das forças de Moscou contra as quatro províncias do leste de seu território, que Putin anexou unilateralmente. Aliás, uma das condições que o presidente russo impôs para terminar a guerra seria a posse dessas quatro províncias e mais a Crimeia, que já tomara em 2014.

GOLPE

De sua parte, a Rússia demonstra que sentiu o golpe. O exército russo reconheceu, neste domingo, que a Ucrânia entrou profundamente em seu território, ao afirmar, em um comunicado, que tinha impedido “tentativas de avanço” em Tolpino, Juravli e Obshchi Kolodez, três cidades localizadas a cerca de 30 km de Kursk. Segundo a mesma fonte, citada pela agência AFP, os avanços foram contidos por bombardeios aéreos, drones e artilharia, assim como pelo envio de contingentes do agrupamento “norte”, deslocado da região ucraniana de Kharkiv. Ou seja, a Rússia teve que tirar contingente que está lutando dentro da Ucrânia, para buscar impedir o avanço ucraniano dentro de seu território.

Jornalistas da AFP viram, neste domingo, dezenas de veículos blindados ucranianos em rodovias da região de Sumy, fronteiriça com a de Kursk, com triângulos brancos pintados, supostamente para identificar as tropas ucranianas que participam da incursão. O presidente Volodimir Zelensky deixou bem clara a nova estratégia ucraniana, ao admitir, pela primeira vez, no sábado, o envolvimento do seu país na incursão na Rússia, afirmando que a operação visa “deslocar a guerra para o território do agressor”.