O presidente russo, Vladimir Putin, demitiu nesta semana o seu ministro da Defesa, general Serguei Shoigu, por entender que depois de 27 meses de guerra a situação segue num impasse. Enquanto via uma certa reação russa, com o cerco a Kharkiv, a segunda maior cidade ucraniana, Putin viajava a Pequim para encontrar-se com aquele que tem sido o seu grande sustentáculo, o presidente chinês, Xi Jinping. Afinal, a China passou a comprar o gás e todos os demais produtos que a Rússia vendia para a Europa e que teve de parar de fornecer em função da guerra. Sempre bom ressaltar que a China compra, mas com um desconto de 20% em relação ao que pagavam os europeus. Mas é isto que está segurando a economia russa. Não se podem esquecer os altos gastos que o país está tendo com a manutenção desta guerra, que fora planejada para durar, no máximo, duas semanas.
AMIZADE
No seu encontro, Xi e Putin procuraram destacar o papel de seus países como potências mundiais, num recado ao maior inimigo de ambos, os Estados Unidos. Em um comunicado conjunto em que ressaltaram “uma nova era” no relacionamento, disseram que “os laços russo-chineses cresceram a ponto de alcançar o nível mais alto de associação e interação estratégica”. Putin procurou dar explícito apoio às pretensões chinesas, na expectativa de ter uma reciprocidade. Assim, disse que a Rússia “reafirmava seu compromisso com o princípio de uma só China, reconhecendo que Taiwan é parte integral da China”. E ainda manifestou que “apoiava firmemente as ações por parte da China para unificar o país”. Com o que, fica implícito que Moscou aprova uma retomada até mesmo pela força. O que, aliás, não faz diferença para Putin, que quer anexar, pela força, a Ucrânia, ou parte dela, depois de seu país já ter reconhecido a independência do vizinho. O qual, diga-se de passagem, em troca do reconhecimento, devolveu para Moscou as armas nucleares do tempo da União Soviética que estavam em seu território.
DUBIEDADE
Apesar de tudo, Putin não recebeu o correspondente apoio de Xi Jinping para suas pretensões no que toca à guerra na Ucrânia. Xi referendou o que já havia dito em ocasiões anteriores. Ou seja, que defende a segurança da Rússia, mas defende também a integridade territorial dos países. Neste caso, tem um recado explícito para Putin: Xi não concorda com o desmembramento da Ucrânia, que é o objetivo do líder russo. Ou seja, água no chope de Putin.
A intenção de Putin, logo que assumiu o poder, era trazer a Ucrânia para sua área de influência, procurando colocar em Kiev um governo vassalo, conforme ele conseguiu fazer na Belarus com o ditador Aleksandr Lukachenko. Chegou a dar um passo importante nesse sentido ao ver assumir a presidência ucraniana seu fiel aliado Víktor Fédorovytch Ianukóvytch. Este acabou sendo detonado pelos movimentos que queriam a passagem da Ucrânia para o âmbito europeu. Estes viram as benesses que passaram a gozar seus vizinhos que antes faziam para da União Soviética, como Polônia, Hungria, Bulgária, Tchéquia, Eslováquia e as repúblicas do Báltico, entre outras. Não queriam mais ficar sob o tacão de Moscou, que fora trazido de volta por Putin.
SITUAÇÃO
Hoje, a Ucrânia tem que usar seu poder militar para impedir o avanço da Rússia sobre seu território. E a guerra nos últimos dias deu uma reviravolta. Diante do fracasso da contraofensiva ucraniana, o presidente Volodimir Zelensky viu-se obrigado, como Putin, a demitir seu comandante militar Valery Zaluzhny. E assistiu, ao mesmo tempo, a um avanço russo no entorno de Kharkiv. As notícias já davam como certa a tomada da cidade pelas forças russas, o que consolidaria importante posição para se apropriar do leste ucraniano, que é a pretensão de Putin. No entanto, a chegada de armas dos aliados ocidentais permitiu uma grande reação por parte das forças ucranianas, a ponto de impedir o avanço dos russos. Curiosamente, em uma entrevista coletiva em Harbin, na China, Putin disse que não quer tomar a cidade de Kharkiv. Que suas forças querem apenas estabelecer uma zona tampão ali perto, para proteger as cidades do sul do seu país. Doce ilusão.
O fato é que, ao conseguir a aprovação do Congresso, o presidente Joe Biden destinou 60,8 bilhões de dólares em ajuda para a Ucrânia. E parte desta ajuda já chegou em forma de armamentos. E mais: com a autorização para a Ucrânia usá-los contra a Rússia quando por esta for atacada. Ou seja, apesar de toda a badalação em Pequim, a situação de Putin no que toca à guerra com a Ucrânia não teve avanço.
