Jurandir Soares

União da periferia

O objetivo é de unir as nações do chamado Sul Global, que se destacam não apenas por sua relevância econômica, mas também pela proposta de uma nova ordem mundial multipolar

A recente reunião dos Brics em Kazan, na Rússia, marcou um momento significativo de mudança de rumo na trajetória do bloco, que busca consolidar-se como uma alternativa geopolítica e econômica ao Ocidente. O objetivo é de unir as nações do chamado Sul Global, que se destacam não apenas por sua relevância econômica, mas também pela proposta de uma nova ordem mundial multipolar. O problema será conciliar economias tão díspares como as dos novos integrantes do bloco e, mais ainda, aqueles que estão pleiteando entrar.

ORIGEM

O termo Bric foi criado pelo economista Jim O’Nill, do Banco Goldman Sachs em 2001, para referir-se aos quatro países vistos com maiores taxas de crescimento econômico até 2050. O grupo Bric, formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia e China, surgiu como uma plataforma para promover o desenvolvimento econômico e a cooperação entre países em desenvolvimento. Pouco tempo depois foi incorporada a África do Sul, acrescentando um s ao nome do grupo. Em 2023, durante a cúpula realizada em Joanesburgo, foram admitidos novos membros: Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A Argentina, sob o governo de Javier Milei, declinou do convite. Na lista de espera para entrar no bloco estão Cuba, Malásia, Usbequistão, Casaquistão, Nigéria, Uganda, Vietnã, Turquia e Belarus.

Entretanto, a admissão de novos países também tem gerado tensões internas. A Venezuela e a Nicarágua, que expressaram interesse em integrar o grupo, foram barradas pelo Brasil, refletindo preocupações sobre as condições políticas e econômicas desses países. Apesar de barrado, o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, apareceu de surpresa em Kazan.

OBJETIVOS

O principal objetivo dos Brics é promover a cooperação econômica entre seus membros, buscando reduzir a dependência do dólar americano e estabelecer uma moeda comum para transações comerciais. Algo muito difícil de dar certo, tamanha a desigualdade entre os membros do bloco. Vide, por exemplo, Arábia Saudita e Etiópia. A ideia de utilizar moedas locais nos negócios entre os países do bloco é uma estratégia clara para minimizar os efeitos de sanções e buscar a autonomia econômica. Esse movimento é especialmente significativo, dadas as sanções que são aplicadas a alguns membros do bloco, como Rússia e Irã.

Sob a liderança de potências como China e Rússia, os Brics buscam não apenas aumentar a participação econômica de seus membros, mas também demonstrar força política. A China, com sua vasta economia e influência crescente, tem liderado a iniciativa de fortalecer laços comerciais, enquanto a Rússia, apesar das sanções ocidentais, continua a ser um ator chave na geopolítica do bloco.

DINÂMICA

A reunião em Kazan destacou a importância de reunir as nações do Sul Global em um esforço coordenado para desafiar a hegemonia ocidental. Os Brics se veem como um contrapeso às políticas unilaterais de potências ocidentais, defendendo uma abordagem mais inclusiva para questões globais como mudança climática, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável. Pretendem articular suas demandas e interesses em plataformas globais, como as Nações Unidas e o G20, fortalecendo sua influência nas decisões que afetam o futuro do planeta.

DESAFIOS

Apesar das promessas e do potencial de crescimento do Brics, o grupo enfrenta desafios significativos. Além da diversidade política e econômica entre seus membros que pode dificultar a tomada de decisões consensuais, tem-se ainda a rivalidade entre China e Índia e as tensões geopolíticas entre Rússia e Ocidente. Fatores que podem complicar a dinâmica interna do bloco.

A reunião dos Brics em Kazan, portanto, caracterizou-se pela busca por uma nova ordem mundial, em que as nações do chamado Sul Global se unam para fortalecer suas vozes e interesses. A luta por uma economia baseada em moedas locais e a tentativa de se desvincular da hegemonia ocidental revelam a ambição do bloco. Sob a liderança de China e Rússia, os Brics querem se tornar uma força significativa na geopolítica global. O problema seguirá sendo a desigualdade entre os membros do bloco. Ainda mais se entrarem os que estão na fila.