A eleição de Laura Fernandes na Costa Rica, com 48,7% dos votos, consolida a tendência que se estabeleceu na América Latina nos últimos tempos: eleição de governante de direita. Isto, depois de décadas de predominância de regimes de esquerda, o que inclusive deu origem ao Foro de São Paulo. Fator determinante para esta virada, a criminalidade. Poder-se-ia acrescentar outros fatores que são comuns na América Latina, como corrupção, perda de poder aquisitivo da população, saúde, educação etc. Mas a questão relacionada ao crime tem preponderado.
EXEMPLO
Justamente a Costa Rica é que serve de exemplo. O país ao longo de décadas foi padrão de segurança pública e tranquilidade para a população. Aliás, um país que, no final da década de 1940, abriu mão de seu Exército. Decidiu manter apenas uma força de segurança, na confiança de ser um país de paz e de bom relacionamento com seus vizinhos. Pois, esta tranquilidade começou a mudar nos últimos anos com o aumento substancial da criminalidade. Um fato atribuído à mudança na rota do narcotráfico. Por sua posição estratégica na América Central, com saída para o Atlântico e para o Pacífico, os traficantes resolveram escolher o país como um entreposto para a droga levada para os Estados Unidos, Europa e, até mesmo, para a Ásia.
SITUAÇÃO
Mas, se na Costa Rica o fator determinante para a virada à direita foi a criminalidade, outros fatores também pesaram muito para esta virada que hoje engloba a maior parte dos países latino-americanos. A começar pela Argentina de Javier Milei, onde o Kirchenismo mergulhou o país numa crise profunda, com corrupção e inflação desenfreadas. É claro que muita gente sente saudades dos programas sociais que as mantinham. Porém, a prática mostra que não se sustenta programa social às custas do afundamento das finanças do país. Os números da economia, especialmente no que toca à inflação, passaram a mostrar o acerto da política econômica posta em prática por Milei. E assim, parece que ele abriu caminho para a virada que passou a acontecer na região.
NOVOS
Três países da América do Sul tiveram eleições presidenciais em 2025, e nos três, candidatos conservadores venceram. Na Bolívia, em outubro, Rodrigo Paz foi eleito presidente e colocou fim a um ciclo de 20 anos de governos de esquerda. Em dezembro, no Chile, José Antonio Kast foi eleito após superar Jeanine Jara, candidata do atual presidente Gabriel Boric, de esquerda. Kast tomará posse em março de 2026.
Além de Bolívia e Chile, o presidente do Equador, Daniel Noboa, também conservador, se reelegeu em maio. Na Argentina, o presidente Javier Milei teve uma vitória importante nas eleições legislativas em outubro e ampliou sua força no Congresso. Antes disto, em abril de 2023, Santiago Peña, um economista com formação nos Estados Unidos e uma passagem pelo Fundo Monetário Internacional, foi eleito presidente do Paraguai. O atual presidente do Peru é José Jerí, que assumiu o cargo no dia 10 de outubro de 2025 após o impeachment de Dina Boluarte.
TENDÊNCIAS
O governo que se apresenta como o mais radical à direita é o de Nagib Bukele, em El Salvador. Ele se destaca por um combate intenso à criminalidade, mas que tem passado por cima de normas constitucionais. A propósito, ao se falar em direita é preciso ressaltar o que se pode qualificar como as três tendências de direita. O professor Eduardo Viola deu uma boa definição, dizendo que existe uma extrema-direita, de tendência ditatorial, uma direita democrática, adepta do liberalismo, e uma centro-direita moderada. Neste quadro, se pode enquadrar Bukele como representante da extrema-direita, José Antônio Kast como da direita democrática e Santiago Peña da direita moderada.
A realidade é que a América Latina está diante de mudanças substanciais, que se dão pelas urnas, pelo voto livre da população. O que não acontece em Cuba, na Nicarágua e na Venezuela, onde o ditador foi arrancado à força do poder, numa ação que também se contrapõe as preceitos democráticos. Este ano ainda teremos eleições na Colômbia, com tendência de virada à direita e no Brasil, este com um quadro ainda indefinido, por estar longe da data da eleição. No momento, a tendência é de manutenção de um dos poucos regimes democráticos de esquerda da região, em meio ao crescimento da direita. Isto, evidentemente, se a direita não seguir a tendência e provocar uma virada no processo eleitoral, que está só se iniciando.
